AS CRIANÇAS

A história de três físicos nucleares que se encontram numa isolada casa à beira-mar em região outrora bucólica, mas devastada por um acidente nuclear. Esse é o mote de As Crianças que chega com nova temporada em São Paulo a partir do dia 14 de março no Teatro Eva Herz. A direção é de Rodrigo Portella (de Tom na Fazenda) e conta com Analu Prestes, Mario Borges e Andrea Dantas no elenco. As apresentações são sempre aos sábados, às 20h, e domingos, às 18h, até 31 de maio.

Escrita em 2016 pela jovem e premiada dramaturga inglesa Lucy Kirkwood, a peça estreou no mítico Royal Court Theatre de Londres, celeiro de boa parte dos mais expressivos jovens dramaturgos ingleses. A montagem brasileira tem uma trajetória de sucesso, pois venceu os prêmios Cesgranrio, e Botequim Cultural nas categorias de Melhor Atriz com Analu Prestes, Melhor Diretor e Melhor Espetáculo. Ainda está concorrendo a 26 prêmios entre Shell, APCA, Aplauso Brasil.

Na trama, o casal de físicos aposentados Dayse (Analu Prestes) e Robin (Mario Borges), vive só e sem vizinhos numa casa improvisada perto da costa, numa região inóspita assolada por um acidente nuclear. Após uma ausência de quase quarenta anos, Rose (Andrea Dantas), antiga colega de profissão e amiga, chega a essa casa com uma missão que poderá mudar para sempre a vida do casal. Para complicar as coisas, Robin teve uma relação com Rose no passado.

A montagem levanta duas camadas de reflexão: num nível individual, fala da relação do ser humano com a passagem do tempo e seu inventário de perdas e ganhos; e num nível coletivo, trata de discussões éticas sobre a responsabilidade com o uso dos recursos do planeta e com as gerações futuras. Reparação e redenção são temas dessa peça que volta seu olhar para os catastróficos resultados da interação entre os humanos e a natureza.

A dramaturgia se sustenta pelo desvendamento progressivo dos sentimentos dos personagens que, aos poucos, vão mostrando não só seus problemas afetivos, mas também a profunda crise ética em relação ao seu papel na sociedade em que vivem. Paralelamente à questão nuclear, o texto investe nas particularidades da vida desses três indivíduos – sua relação com os filhos (ou a opção por não tê-los), a proximidade da morte, a traição, as omissões, a fantasia e o desejo. Trata-se de um grande desastre a espelhar os pequenos desastres de três vidas.

A discussão da peça está para além da questão nuclear. Ela nos provoca a pensar em como usamos os recursos disponíveis. Entendo que Kirkwood quer que pensemos em nossa responsabilidade com as futuras gerações. Para mim a grande pergunta da peça é: salvar as crianças de um futuro catastrófico é um ato de heroísmo ou uma obrigação?”, questiona o diretor.

A montagem conta com a cena limpa – uma grande e comprida mesa de madeira e algumas cadeiras. As mudanças de ambiente são materializadas pelo trabalho dos atores.  “O texto de Lucy Kirkwood me parece ser uma dessas obras que dispensaria a concretude da cena. Cheguei a pensar que os atores poderiam se sentar em um palco vazio e falar rubricas e diálogos sem precisar fazer qualquer coisa. Eu gosto de contar com a imaginação do público. O teatro é ‘precário’ por natureza e é nessa precariedade que enxergo sua potência; uma vez que o ‘palco’ nunca dará conta de toda a realidade da fábula. Assim cada espectador usa de sua imaginação e memória para viver uma experiência singular.  Como quem lê um livro, por exemplo. Nesse caso, como se o próprio livro se lesse sozinho para o espectador. Para mim ‘a coisa toda’ acontece no encontro dos imaginários. Por isso a cozinha onde se passa a peça não precisa ser materializada, a salada não precisa existir e os atores nem precisam comer. Essa desobrigação me abre espaço para a criação de uma outra dimensão dentro da obra: mais aberta, evocativa, múltipla e ao mesmo tempo particular”, descreve Portella.

A Peça Na Linha Do Tempo

Desde os anos 1950, no pós-guerra, quando o mundo tentava digerir a tragédia desencadeada pelas bombas atômicas detonadas em Hiroshima e Nagasaki, a energia nuclear tornou-se o centro das atenções – para o bem ou para o mal. O mundo passou a refletir sobre seus benefícios e malefícios. Que discurso ético sustentaria o extermínio de milhares de pessoas com sofrimentos indizíveis?

O sofrimento estampado nas imagens das vítimas no Japão ainda hoje assombra o planeta. Afinal, foi para isso que a ciência avançou? As dúvidas, porém, não inibiram o avanço das pesquisas, a busca desesperada pelo poder através da manipulação da ciência e especificamente da energia nuclear.

A Guerra Fria que se seguiu, entre Estados Unidos e União Soviética, evidencia essa disputa. Possuir reatores atômicos torna “respeitáveis” as grandes potências. Estão aí os seguidores desta cartilha, como o dirigente da Coreia do Norte, que faz o mundo tremer com suas experiências em águas internacionais. Parecem não importar os acidentes catastróficos já ocorridos – é só lembrar de Chernobyl – e as consequências devastadoras para populações indefesas, que continuam morrendo sob o efeito da contaminação. – Essa parte parece ser aspas de alguém. Seria?

FACE

As Crianças

Com Mario Borges, Analu Prestes e Andrea Dantas

Teatro Eva Herz – Livraria Cultura (Av. Paulista, 2073 – Bela Vista, São Paulo)

Duração 100 minutos

14/03 a 31/05

Sábado – 20h, Domingo – 18h

$80

Classificação 14 anos

ARAP

O Espetáculo mostra a preparação do personagem e de como o artista usa o seu ofício para questionar o seu tempo através da dramaturgia e pensamentos, colocando a arte e a educação como caminho de grandeza para que uma nação exista plena e fortaleça a sua democracia. O espetáculo também investiga o papel da palavra no processo terapêutico, ao lado da importância da arte, no mesmo processo.
 
Mais do que nunca é preciso pensar para transformar o nosso tempo. O teatro dá aos homens a ternura humana. Ele é a expressão mais verdadeira e viva de uma civilização. Toda vez que um ator pisa num palco, ele perpetua sua paixão e oferece o seu coração, para que possamos suportar o que temos de mais monstruoso e de mais belo. É assim, que nos tornamos artistas soberanos.
 
Elias Andreato afirma que seu novo projeto é “uma reflexão sobre o nosso ofício e uma declaração de amor ao Teatro. Escrever para mim mesmo, numa postura alquímica de transformação, é tudo que me resta e prezo de verdade. Quem sabe, o subproduto dessa empreitada poderá no futuro, ser útil não só a mim. Mas o que importa é abrir espaço contra a inércia que me vinha dominando”, completa.
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Me desculpem se eu parar de repente… porque… porque… eu não sei onde foi parar o mundo de verdade, onde?
 
O menino que ficava aí do lado de vocês, eu não sei como me livrar dele
 
Eu estou louco, completamente…
 
Eu vou ter que ir… Mesmo assim, valeu a pena.
 
Me perdoem parar o espetáculo, assim, de repente. Mas eu preciso ir… para sempre.
FACE (2)
Arap
Com Elias Andreato
Teatro Eva Herz – Livraria Cultura SP (Av. Paulista, 2073 – Cerqueira César, São Paulo)
Duração 55 minutos
01/02 a 28/03
Sábado – 17h
$40
Classificação 12 anos

AMAR, VERBO INTRANSITIVO

Escrito em 1927 e considerado o primeiro romance do escritor modernista Mário de Andrade (1893-1945), Amar, Verbo Intransitivo ganha uma adaptação teatral com dramaturgia de Luciana Carnieli e direção de Dagoberto Feliz. O espetáculo estreou em maio de 2019 e volta em cartaz no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, para uma temporada às sextas-feiras, às 20h, de 31 de janeiro a 27 de março de 2020.

A trama narra a história da governanta Fräulein Elza (interpretada pela própria Luciana Carnieli), que é contratada por uma família tradicional paulista nos anos de 1920 para fazer a iniciação amorosa e sexual de Carlos (vivido por Pedro Daher), o primogênito herdeiro. A partir desse encontro, os personagens vivem uma relação amorosa, revelando críticas sociais e comportamentais.

Leitor da alma feminina, Mário de Andrade constrói uma protagonista que se destaca por sua multiplicidade. A governanta, professora de línguas, de piano e de amor deixa a terra onde nasceu, a Alemanha, e torna-se sujeito de seu próprio destino em território brasileiro. Uma prostituta alemã inserida na sociedade aristocrática de disfarces. A protagonista, apesar de estar colocada no contexto histórico do início do século XX, é ideal para discutir o constante papel de subordinação da mulher na sociedade burguesa e patriarcal.

Escolhi esse romance porque gosto muito da literatura de Mário de Andrade. Ele construiu uma personagem muito complexa, fascinante, redonda e vertical e eu tive muita curiosidade de me lançar nesse trabalho. Apesar de se passar nos anos de 1920, o romance espelha muito a nossa sociedade atual, na qual a mulher é subordinada ao homem o tempo todo. Por mais que Fräulein tenha sua dignidade e seja intelectualmente e culturalmente superior àquela família, é tratada como um ser inferior – não só pelo fato de ela ser prostituta, mas por ser mulher. Na história, vemos claramente que a sociedade paulistana, a aristocracia e a burguesia não mudaram nada”, revela a atriz Luciana Carnieli, que idealizou a montagem.

A encenação tem como foco central o jogo cênico entre os dois atores, que narram a história e simultaneamente interpretam os personagens. Assim, a linguagem cênica se alterna entre narração e dramatização.

A ação transcorrerá em um cenário que simula um estúdio cinematográfico. As partes dramatizadas acontecerão como se estivessem sendo filmadas, acrescentando mais um degrau à história e à linguagem do espetáculo. Literatura, teatro e cinema se intercalam nessa transposição do romance para o palco.

A criação dos figurinos conta com elementos essenciais e necessários para a construção desse universo. A música e a iluminação também darão suporte para retratar o ambiente de aparências e a sociedade patriarcal em que estão inseridos os personagens.

FACE

Amar, Verbo Intransitivo

Com Luciana Carnieli e Pedro Daher

Teatro Eva Herz – Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2073 – Cerqueira César, São Paulo)

Duração 70 minutos

31/01 a 27/03

Sexta – 20h

$50

Classificação 12 anos

PASSARINHO

Em temporada no Teatro Eva Herz todas as quintas até 26 de março, PASSARINHO, monólogo da atriz e dramaturga terá um debate especial após a próxima sessão do dia 13 de fevereiro, quinta-feira. Ana Kutner recebe Leandro Karnal para, juntos, falarem sobre a metáfora  do Porco Espinho, proposta por Schopenhauer. A ideia é fazer um paralelo entre a teoria, o espetáculo e trazer também pontos discutidos por Karnal em seu livro “O Dilema do Porco Espinho – como encarar a solidão”.
A dupla deve falar sobre a necessidade de se desenvolver afetos e a solidão nos dias atuais. Primeiro trabalho como dramaturga da atriz Ana Kutner, Passarinho retorna para um temporada no Teatro Eva Herz no próximo dia 6 de fevereiro. Com direção de Clara Kutner, a peça propõe um diálogo com o público por meio de poesia. O espetáculo estreou em 2017 e traz um autobiografia de Ana, em seu primeiro mergulho como autora, falando sobre as experiências afetivas, memórias, dores e descobertas.
Passarinho
Em cena, Ana, que é também iluminadora, opera a própria a luz, além do som,  promove um encontro franco, direto e amoroso com o público, para quem oferece seus relatos num tom que, apesar de confessional, não deixa entrever os limites entre realidade e ficção e se vale de sua experiência particular para falar do que é universal e reconhecível por qualquer um de nós.
A peça foi transformada em livro, que saiu pela editora Cobogó em 2018. O livro estará à venda  nos dias da apresentação e o público poderá ter seu exemplar autografado pela atriz e autora.
Passarinho e o Eva Herz 
Em 2019, Passarinho teve algumas micro temporadas em uma versão mais intimista. Agora, retorna ao palco italiano e em uns lugar que sempre foi um sonho para Ana Kutner. “Quando comecei a fazer o Passarinho, ficou muito claro para mim e para a diretora Clara Kutner que o espetáculo precisava transitar em espaços múltiplos, deslocar, para além das salas de teatro, experimentar outras interlocuções, performar em novos espaços, causando a provocação estética que buscamos: os atravessamentos. Mas sempre estive de olho no Eva Herz. A proximidade com a livraria e seu tamanho me permitem um amplo diálogo com a platéia. Esse desejo só cresceu quando Passarinho alcançou outros ninhos ao se transformar em livro. O Eva Herz faz muito bem esse diálogo entre os palcos e a literatura”, explica Ana Kutner.
A peça se dá em um cenário que é quase uma instalação: no palco, o público vê um banco e uma instalação de múltiplas lâmpadas em alturas diferentes, que criam uma espécie de chão de estrelas ao redor da atriz. A luz e o som são operados pela própria, ao longo da peça. A ideia do cenário é permitir que o espetáculo tenha a versatilidade que mostra desde a sua estreia, adaptando-se aos mais diversos espaços e também possibilitando experimentações na conversa com o público.
Gosto da liberdade que o espetáculo me dá de levar a mensagem a espaços múltiplos. A peça defende o direito e a liberdade de sermos quem somos, sem julgamentos ou rótulos. E neste sentido ela é política e universal. Ela só é radical na não radicalidade. Falo, sim, de meu pai e minha mãe (Paulo José e Dina Sfat), na medida em que eles são também minha história e minha memória, mas falo de muitos outros afetos e de como eles me atravessaram pela vida.” completa Ana.
Além de Passarinho, que Ana deseja fazer pousar em outros ninhos, a atriz também está bem envolvida com o cinema e séries para TV. Recentemente, esteve envolvida em Psi (HBO), Colônia (Canal Brasil), Terrores Urbanos (Sentimental Filmes e Reccord), Boca a Boca (Netflix) e As Aparecidas (filme de Ivan Feijó).
FACE (1)
Passarinho
Com Ana Kutner
Teatro Eva Herz – Livraria Cultura (Av. Paulista, 2073 – Cerqueira César, São Paulo)
Duração 60 minutos
06/02 a 26/03 (27/02 não haverá espetáculo)
Quinta – 20h
$60
Classificação 16 anos

BAGAGEM

Sucesso de crítica e de público, o espetáculo autobiográfico de improvisação Bagagem, do ator Marcio Ballas, ganha mais uma temporada no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, entre 25 de outubro e 6 de dezembro. A peça, que estreou em 2018, foi indicada a duas categorias no Prêmio de Humor 2019, idealizado pelo humorista Fábio Porchat. A direção é assinada por Rhena de Faria.

Pesquisador das linguagens do palhaço e da improvisação teatral há 20 anos, Ballas conta no espetáculo alguns episódios que marcaram a sua infância. Nos anos de 1950, o militar Gamal Abdel Nasser tornou-se presidente do Egito e implantou várias medidas para limitar a presença de estrangeiros no país, o que gerou uma guerra responsável pela expulsão de milhares judeus da região. Os pais do ator foram obrigados a abandonar sua terra natal nessa circunstância e embarcaram em um navio com destino ao Brasil.

Segundo Ballas, a ideia de contar ao público as histórias de sua família surgiu em um jantar. “Em uma sexta feira, fui comer na casa da minha mãe. Na sobremesa, tinham vários doces incríveis e um pequeno cacho de bananas. Brinquei dizendo que ninguém escolheria a fruta. Ela disse: ‘Não fale assim. Um dia, isso foi o meu almoço’. Eu achei que ela estava brincando, mas ela contou que quando chegaram refugiados do Egito, não tinham dinheiro para comida. Então, por várias vezes, almoçaram bananas! Nesse dia, pensei: quero compartilhar as histórias da minha família em um espetáculo”, explica Ballas.

Em cena, Ballas apresenta uma visão bem-humorada e poética sobre as histórias de sua família e a Cultura Judaica em forma de pequenas crônicas, com os temas infância, melhor amigo, pai, mãe e férias. As técnicas de improviso teatral são usadas quando o ator convida a plateia para entrar na cena e a participar da peça.

Em 2010, eu organizei um Festival de Improviso no Brasil e trouxe convidados internacionais. Um deles era o mestre Omar Argentino, que apresentou um solo de improviso. Eu fiquei maravilhado. Eu não sabia que dava para improvisar sozinho, não sabia que era possível! Essa ideia ficou na minha cabeça durante 7 anos, até que eu tomei coragem e decidi: está na hora de fazer o meu solo. Misturei o improviso com textos escritos e surgiu o espetáculo”, conta o improvisador.

 

Bagagem

Com Marcio Ballas

Teatro Eva Herz – Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2073, Bela Vista, São Paulo)

Duração 60 minutos

25/10 até 06/12

Sexta – 21h

$60

Classificação 10 anos

O QUE É QUE ELE TEM

Escrito por Olivia Byington a partir de suas memórias, ‘O Que é Que Ele Tem’ foi lançado em 2016 e comoveu uma série de leitores, impactados com a história de amor incondicional entre uma mãe e seu filho nascido com a síndrome de Apert. Já prestes a começar um outro projeto teatral, Louise Cardoso foi atravessada pela obra de tal modo que mudou seus planos e se dedicou inteiramente a levar a saga de Olivia aos palcos. Com o texto do livro adaptado pela dramaturga Renata Mizrahi e direção de Fernando PhilbertLouise leva seu monólogo para São Paulo a partir de 6 de julho, para curta temporada no Teatro Eva Herz.

Eu já estava planejando fazer outro espetáculo e comecei a ler o livro da Olivia por indicação do Flávio Marinho. Antes mesmo de terminar, já tinha mudado de ideia e queria encenar aquela história. Mais do que uma história de superação, é uma história de amor, que nos faz refletir sobre conviver em sociedade e lidar com as diferenças’, conta a atriz, que completa 42 anos de carreira e finaliza uma trilogia acidental sobre a maternidade, depois de encenar o épico ‘Mãe Coragem e Seus Filhos’ (2007), de Bertolt Brecht, e a comédia ‘Velha é a Mãe’ (2010), de Fábio Porchat. Assim como na maioria de seus trabalhos no teatro, Louise assumiu também a produção da peça, que conta com o patrocínio da Vivo.

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‘Nada é melhor para alguém com deficiência do que o convívio em sociedade.
Nada é melhor para a sociedade do que o convívio com as diferenças’

Logo que nasceu, em 1981, João foi diagnosticado com a raríssima síndrome de Apert, causada por uma mutação genética que gera acrocefalia (desenvolvimento do crânio anormal) e sindactilia (pés e mãos fundidos total ou parcialmente). Aos 22 anos e mãe de primeira viagem, Olivia Byington viu seu filho sair diretamente da maternidade para o centro cirúrgico, quando iniciou uma verdadeira odisseia, com dezenas de cirurgias, alguns erros médicos e viagens para tratamento em outros países.

Ela precisou interromper a bem-sucedida carreira de cantora que iniciava para se lançar ao enorme desafio que vinha pela frente. Após todo o período inicial, ainda que os problemas de saúde volta e meia voltassem a aparecer, Olivia começou uma outra batalha, ainda mais complexa: a luta pela inclusão de seu filho em um mundo que não está preparado para conviver com a diferença.

À primeira vista, ‘O Que é Que Ele Tem’ pode parecer um drama – e existem, de fato, passagens dramáticas – mas não é somente isso. ‘É uma história de muitas vitórias. Olivia não se faz de coitada em momento algum. Ela vai à luta, enfrenta os problemas com absoluta leveza, coragem e muita determinação. Ela e João são exemplos de otimismo e amor à vida. A adaptação para o teatro privilegia muito a essência desse comportamento e dessa visão de mundo tão importante’, celebra Louise Cardoso.

Desde que foi procurada por Louise, Olivia embarcou de imediato na ideia de transformar seu livro em uma peça. Um dos principais nomes da nova geração de autores teatrais, Renata Mizrahi, vencedora do Prêmio Shell em 2014 por ‘Galápagos’, foi convocada para a missão de transformar o material em teatro. Sempre fiel ao livro de origem, a peça procura aproximar ainda mais o espectador da história que é contada em cena.

Em cena, Louise está cercada de um cenário essencial, assinado por Natália Lana, com poucos objetos e algumas projeções de desenhos feitos por Olivia para o livro. A presença da autora se estende para a trilha sonora, toda feita com registros de canções gravadas por Olivia ao longo de sua trajetória como cantora, também citada em algumas cenas do espetáculo. A iluminação é assinada por Vilmar Olos.

A direção de Fernando Philbert procura valorizar ainda mais a intimidade do relato. Ele vem da direção de outro monólogo, o bem-sucedido solo de Marcos Caruso em ‘O Escândalo de Felippe Dussaert’, ainda em cartaz, além de ter codirigido com Lázaro Ramos ‘O Topo da Montanha’, outra montagem que fala sobre tolerância e diversidade. Ao longo da carreira, ele ainda esteve presente em uma série de trabalhos com Aderbal Freire-Filho, como nas montagens emblemáticas de ‘Hamlet’ (2008) e ‘Incêndios’ (2012).

FACE

O que é que ele tem

Com Louise Cardoso

Teatro Eva Herz – Livraria Cultura (Av. Paulista, 2073 – Cerqueira César, São Paulo)

Duração 70 minutos

06/07 até 25/08

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$70

Classificação 12 minutos

AMAR, VERBO INTRANSITIVO

Escrito em 1927 e considerado o primeiro romance do escritor modernista Mário de Andrade (1893-1945), Amar, Verbo Intransitivo ganha uma adaptação teatral com dramaturgia de Luciana Carnieli e direção de Dagoberto Feliz. O espetáculo estreou em maio na Oficina Cultural Oswald de Andrade e volta em cartaz no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, para uma temporada às quintas-feiras, às 21h, de 11 de julho a 26 de setembro.

A trama narra a história da governanta Fräulein Elza (interpretada pela própria Luciana Carnieli), que é contratada por uma família tradicional paulista nos anos de 1920 para fazer a iniciação amorosa e sexual de Carlos (vivido por Pedro Daher), o primogênito herdeiro. A partir desse encontro, os personagens vivem uma relação amorosa, revelando críticas sociais e comportamentais.

Leitor da alma feminina, Mário de Andrade constrói uma protagonista que se destaca por sua multiplicidade. A governanta, professora de línguas, de piano e de amor deixa a terra onde nasceu, a Alemanha, e torna-se sujeito de seu próprio destino em território brasileiro. Uma prostituta alemã inserida na sociedade aristocrática de disfarces. A protagonista, apesar de estar colocada no contexto histórico do início do século XX, é ideal para discutir o constante papel de subordinação da mulher na sociedade burguesa e patriarcal.

Escolhi esse romance porque gosto muito da literatura de Mário de Andrade. Ele construiu uma personagem muito complexa, fascinante, redonda e vertical e eu tive muita curiosidade de me lançar nesse trabalho. Apesar de se passar nos anos de 1920, o romance espelha muito a nossa sociedade atual, na qual a mulher é subordinada ao homem o tempo todo. Por mais que Fräulein tenha sua dignidade e seja intelectualmente e culturalmente superior àquela família, é tratada como um ser inferior – não só pelo fato de ela ser prostituta, mas por ser mulher. Na história, vemos claramente que a sociedade paulistana, a aristocracia e a burguesia não mudaram nada”, revela a atriz Luciana Carnieli, que idealizou a montagem.

A encenação tem como foco central o jogo cênico entre os dois atores, que narram a história e simultaneamente interpretam os personagens. Assim, a linguagem cênica se alterna entre narração e dramatização.

A ação transcorrerá em um cenário que simula um estúdio cinematográfico. As partes dramatizadas acontecerão como se estivessem sendo filmadas, acrescentando mais um degrau à história e à linguagem do espetáculo. Literatura, teatro e cinema se intercalam nessa transposição do romance para o palco.

A criação dos figurinos conta com elementos essenciais e necessários para a construção desse universo. A música e a iluminação também darão suporte para retratar o ambiente de aparências e a sociedade patriarcal em que estão inseridos os personagens.

FACE

Amar, Verbo Intransitivo

Com Luciana Carnieli e Pedro Daher

Teatro Eva Herz – Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2073 – Cerqueira César, São Paulo)

Duração 70 minutos

11/07 até 26/09

Quinta – 21h

$50

Classificação 12 anos