INFERNO – UM INTERLÚDIO EXPRESSIONISTA

Inspirada em Not About Nightingales, obra escrita por Tennessee Williams (1911 – 1983) quando tinha apenas 27 anos de idade e descoberta somente nos anos 90, a Cia Triptal encena Inferno – Um Interlúdio Expressionista, peça dedicada à memória de quatro homens que morreram de tortura em uma prisão americana, em agosto de 1938.

A direção é de André Garolli e o elenco conta com Camila dos Anjos, Fernando Vieira, Fabrício Pietro e mais 37 atores. A estreia acontece no dia 30 de agosto, sexta-feira, às 21h, no Teatro João Caetano. A temporada tem entrada gratuita e conta com sessões sempre sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 19h, até 22 de setembro.

A montagem retrata a atrocidade que realmente ocorreu em uma prisão em Holmesburg, Pennsylvania, em 1938. Um grupo de 25 presos realizou uma greve de fome e como punição foi trancado em uma cela fechada com vapor aquecido. Quatro deles morreram assados, e quando a notícia da brutalidade foi disseminada por meio dos jornais, a opinião pública americana ficou indignada.

Essa dramaturgia tem uma grande dose de horror, violência, sangue e morte. Ele nos mostra os problemas e as consequências de usarmos ações disciplinares arcaicas e brutais, e que infelizmente, ao relermos setenta anos depois, percebemos que pouca coisa mudou. É uma história verídica que serviu para rever questões do sistema carcerário nos Estados Unidos e dos direitos humanos”, conta Garolli.

Cenograficamente, o espetáculo é dividido em duas características: realista com os móveis da diretoria e expressionista com a representação das celas. O enclausuramento foi um dos temas focados durante o processo, o que refletiu no cenário que evoca o sentido de aglomeração das pessoas por meio de um empilhamento de cadeiras. Os figurinos incorporam uma época que se passa em meio aos anos 30 e 40, pós crise de 1929. Preto e cinza marcam a palheta de cores predominantes em cena, a maquiagem contribui para causar o efeito padronizado do aprisionamento.

O reaparecimento desse trabalho engavetado de um autor como Tennessee Williams chocou e surpreendeu muitos críticos e estudiosos, quando foi realizada a montagem pela primeira vez em Londres no ano de 1998. Escrito no final de 1938, mas nunca produzido até sessenta anos depois, a obra oferece um retrato muito diferente de seu autor ícone, um dramaturgo que é mais conhecido por seu lirismo e comoventes retratos de personagens tão vulneráveis como Laura Wingfield (À Margem da Vida) e Blanche DuBois (Um Bonde Chamado Desejo).

O diretor ressaltou a importância desse texto do dramaturgo. “Tennessee defendia uma crítica aos padrões estabelecidos pelo “mainstream” e coloca em pauta o marginalizado, “os perdedores” e os fora do padrão normativo (à deriva). Lança um olhar crítico e distanciado sobre a sociedade, uma vez que se recusa a julgar os personagens e estabelecer morais de conduta”.

A peça surgiu a partir do projeto Homens À Deriva foi contemplado no 32º edital de Fomento ao Teatro, iniciativa que aborda as possibilidades de aprisionamento em que uma sociedade pode levar uma pessoa. Durante o processo, houve uma convocatória pública direcionada para atores e estudantes da área e atraiu 217 pessoas que participaram de diversas fases até fechar o elenco.

Na primeira etapa, a Cia Triptal realizou a apresentação de 4 espetáculos que abordam o tema do aprisionamento, três deles do seu próprio repertório, além de um ciclo de seminários. A segunda focou em oficinas de preparação para atores/atrizes. A terceira contou com estudos de texto, pesquisa de linguagem, improvisação de cenas até a consolidação dos ensaios. A fase final é a estreia da peça com um coletivo de 40 atores/atrizes, composto por um núcleo principal de 3 artistas e um coro com jovens atores.

O projeto Homens à Deriva faz parte de uma trilogia que iniciou com Homens Ao Mar (2004-2009) com peças de Eugene O’Neill, o segundo foi Homens à Margem (2011 – 2014) com trabalhos que focavam na marginalidade. “Homens à Deriva vem do sentindo que quando eles são retirados da sociedade para o cárcere, ao retornar, ficam a esmo, emprego e família ficam destruídas. Todos esses tipos de violência foram gatilhos que inspiram toda a montagem”, enfatiza o diretor.

André Garolli também foi convidado para participar do Provincetown Tennessee Williams Theater Festival, que será realizado em setembro de 2019 em Provincetown, cidade localizada no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. Uma forma de ficar ainda mais próximo com o universo do dramaturgo por meio de palestras e simpósios, uma valorização dos projetos realizados nos últimos anos.

FACE

Inferno – Um Interlúdio Expressionista

Com Camila dos Anjos, Fernando Vieira, Fabrício Pietro, e mais 37 atores

Teatro Municipal João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino, São Paulo)

Duração 110 minutos

30/08 até 22/09

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

Grátis

Classificação 16 anos

O TESTAMENTO DE MARIA

O solo O Testamento de Maria, com direção e adaptação de Ron Daniels, é inspirado no livro homônimo do escritor irlandês Colm Tóibin, que também escreveu o bestseller “Brooklyn”, cuja adaptação para cinema foi indicada ao Oscar 2016 em três categorias.

A montagem revela como Maria, a mãe de Jesus Cristo, procura desvendar os mistérios ao redor da crucificação de seu filho. Perseguida e exilada, ela narra a sua trajetória e todo o seu sofrimento com uma voz carregada de ternura, ironia e raiva. Maria se propõe a falar apenas a verdade sobre a enorme crueldade dos romanos e anciãos judeus.

A ideia da encenação é destacar não apenas a importância religiosa de Maria, mas revelá-la como uma figura de enorme estatura moral. “Estava alerta, também, ao fato de vermos Maria como ícone, como mãe, mas nunca como uma mulher que sabe se colocar e que precisa ser ouvida. Para dar-lhe uma voz, olhei para os textos gregos, para as imagens de uma mulher solitária e corajosa, pronta para dizer palavras que são difíceis de ouvir”, esclarece Colm Tóibin.

A montagem rendeu à Denise Weinberg o prêmio APCA 2016 (Associação Paulista de Críticos de Arte), na categoria de melhor atriz. “O ponto de partida do nosso espetáculo também é este: uma atriz maravilhosa, que é a Denise, um texto de grande profundidade, e um espetáculo puro, belo e despojado, que possa oferecer à plateia momentos de grande humanidade”, diz Ron Daniels.

Em cena, a atriz é acompanhada apenas pelo músico Gregory Slivar, que assina e executa a trilha sonora ao vivo. O espetáculo foi produzido originalmente na Broadway, por Scott Rudin Productions e desenvolvido pelo Dublin Theatre Festival e Landmark Productions, com o apoio do Irish Theatre Trust.

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O Testamento de Maria

Com Denise Weinberg

Duração 60 minutos (mais 30 minutos de debate)

Classificação 16 anos

Teatro Municipal João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino – São Paulo)

01/03, 09/03 e 10/03

Quinta, Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$20

Workshop da Denise Weinberg no Teatro João Caetano – dia 09/03 – às 15h.

Informações: (11) 5573-3774 / 5549-1744

Teatro Alfredo Mesquita (Avenida Santos Dumont, 1770 – Santana – São Paulo)

28/03, 29/03, 06/04, 07/04, 11/04 e 12/04

Quinta, Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$20

Workshop da Denise Weinberg no Teatro Alfredo Mesquita – dia 06/04 – às 15h00.

Informações: (11) 2221-3657

IMORTAIS

Contemporâneo e tradicional, vida e morte, liberdade e moral, masculino e feminino entram radicalmente em choque na peça Imortais, com texto de Newton Moreno e direção de Inez Viana, o mais recente trabalho da veterana Denise Weinberg. Esses conflitos servem para criar uma reflexão sobre a noção de pertencimento e sobre quais aspectos da experiência humana são capazes de tornar um indivíduo imortal. A montagem rendeu a Newton Moreno o Prêmio Aplauso Brasil de melhor dramaturgia de 2017 e a indicação ao Prêmio Shell na mesma categoria. Também recebeu a indicação ao Prêmio Aplauso Brasil de melhor cenário para André Cortez.

A trama narra o reencontro entre uma mãe extremamente apegada às tradições e uma filha que não se ajustou ao modo de vida de sua casa, fugiu precocemente e, desde então, nunca mais falou com a família. Doente e desenganada, a matriarca amargurada decide se mudar para o cemitério onde o marido e a outra filha estão enterrados, com a última esperança de que alguém apareça para realizar a coberta de sua alma.

De acordo com esse ritual fúnebre de origem açoriana (também realizado em comunidades conservadoras no sul do Brasil), quando uma pessoa morre, é preciso que um ente querido vista suas roupas e imite seus gestos para que seu espírito possa se despedir de todos e descansar em paz.

A filha retorna à terra natal acompanhada de seu noivo, um homem trans ainda em processo de transição. Enquanto espera pela morte, a mãe precisa assimilar a cultura e o modo de vida da sua única herdeira, além de enfrentar um segredo terrível do passado que a filha carregou durante todos esses anos.

A encenação, segundo Denise Weinberg, trata da necessidade de se resgatar um ritual para que as pessoas possam celebrar a vida, os nascimentos, as mortes, as aventuras, as desventuras, os encontros e os desencontros. “Por que temos essa preocupação em deixar uma saudade, em marcar nossa caminhada fazendo algo ‘importante’, esse incômodo de sermos mortais, finitos? Por que querermos ser tão notados, tão aceitos, tão amados? Essas são perguntas que sempre fiz e sempre farei. Onde ficam aqueles que não pertencem a lugar nenhum?”, complementa a atriz.

Para Newton Moreno a ‘coberta da alma’ surge como meio – dispositivo performático da raiz – proposto para detonar esta reflexão. Até onde a tradição e o contemporâneo podem conviver e se retroalimentar? Qual a negociação ainda possível entre os dois?

Segundo a diretora Inez Viana esta peça fala de tradição, família, traição, morte e desamor. Falamos aqui de escolha e liberdade, através do encontro de três mulheres, no momento em que decidem seguir por outros caminhos, mudar o rumo de suas vidas.

Além de Weinberg, o elenco da peça é formado pelas atrizes Michelle Boesche e Simone Evaristo e pelo músico Gregory Slivar, que interpreta ao vivo a trilha sonora. O espetáculo estreou em junho no Sesc Consolação.

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Imortais

Com Denise Weinberg, Michelle Boesche e Simone Evaristo

Duração 90 minutos (mais 30 minutos de debate)

Classificação 14 anos

Teatro Municipal João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino – São Paulo)

02/03, 03/03, 07/03 e 08/03

Quinta, Sexta, Sábado – 21h, Domingo – 19h

$20

Workshop da Denise Weinberg no Teatro João Caetano – dia 09/03 – às 15h00.

Informações: (11) 5573-3774 / 5549-1744

Teatro Alfredo Mesquita (Avenida Santos Dumont, 1770 – Santana – São Paulo)

30/03, 31/03, 04/04, 05/04, 13/04 e 14/04

Quinta, Sexta, Sábado – 21h, Domingo – 19h

$20

Workshop da Denise Weinberg no Teatro Alfredo Mesquita – dia 06/04 – às 15h00.

Informações: (11) 2221-3657

O JARDIM

Em comemoração a seus 10 anos de carreira, a Cia. Hiato relembra um de seus mais elogiados trabalhos, O Jardim com uma nova temporada no Teatro João Caetano a partir de 9 de fevereiro.

A terceira peça da trupe conquistou em 2011 os prêmios Governador do Estado, APCA (melhor direção) Shell (Autor e Cenário), CPT – Cooperativa Paulista de Teatro (Autor e Espetáculo) e Questão de Crítica (Figurino).

Com direção e dramaturgia de Leonardo Moreira, a peça trata das memórias perdidas, a partir de uma investigação sobre a doença de Alzheimer, bem como das memórias que nunca se apagam e das memórias inventadas.  A montagem pretende se conectar ao público por meio de uma narrativa múltipla, reinventada pela reapropriação de episódios clássicos da literatura. Um deles é o trecho de “Em busca do Tempo Perdido”, de M. Proust, em que a degustação de um simples bolinho, mergulhado em uma xícara de chá, abre as portas para a memória de uma vida inteira.

Outra analogia vem da poesia de histórias ordinárias que saltam dos depoimentos colhidos em visitas a asilos e casas de repouso, um lugar de memórias. A autobiografia do neurologista Eric M. Kandel, ganhador do Prêmio Nobel, também é uma referência. Na obra, são descritos os processos biológicos de memória e aprendizado.

Outras fontes de inspiração são as fotografias e a narrativa extremamente emocional do fotógrafo Philip Toledano, além dos escritos verídicos de um esquizofrênico e depoimentos pessoais dos atores-criadores: familiares, lembranças, fotografias e objetos que guardam memórias. Outro guia nesta trajetória criativa é o trabalho com instituições dedicadas ao tratamento e prevenção do Mal de Alzheimer.

O espetáculo também se apresenta como experiência pessoal, por meio do compartilhamento entre nossa história, a história que inventamos e a história do público. Essa perspectiva gera um olhar sobre o que nos dá a sensação de ‘pertencimento’ e nos conecta às nossas origens”, explica Leonardo Moreira.

SINOPSE

Três histórias pertencentes a tempos diferentes se cruzam, se sobrepõem e se chocam para formar uma paisagem a ser contemplada pelo espectador: um jardim que une as memórias que perdemos, as memórias que não podem ser apagadas e ainda aquelas que imaginamos. O espetáculo parte de lembranças reais do diretor/dramaturgo e dos atores para refletir, por meio de narrativas bem-humoradas e tocantes, sobre a perda de memória e a construção de nossas histórias individuais. A memória é um instrumento para se questionar nossa percepção coesa e coerente da realidade. O espetáculo também se apresenta como experiência pessoal, por meio do compartilhamento entre as histórias da companhia, que os artistas inventaram e do público.

O Jardim
Com Aline Filócomo, Fernanda Stefanski, Luciana Paes, Maria Amélia Farah, Paula Picarelli, Thiago Amaral, Edison Simão
Teatro Municipal João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino, São Paulo)
Duração 90 minutos
09 a 25/02
Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h
$20
Classificação 14 anos

AS CRIADAS

O espetáculo “As Criadas” está no repertório do Grupo Tapa desde 2015. A montagem estreia uma nova temporada em São Paulo no dia 06 de outubro, sexta-feira,  no Teatro João Caetano. A direção é de Eduardo Tolentino de Araujo, e no elenco estão as atrizes Clara Carvalho, Mariana Muniz e Emilia Rey.

Escrita por Jean Genet (1910 – 1986) em 1947, “As Criadas” é um clássico da dramaturgia francesa. Reconhecido como escritor de extraordinário talento e admirado por escritores como Jean Cocteau e Jean-Paul Sartre, Genet escreveu a maioria de seus textos durante os anos em que esteve preso, o que confere características bastante únicas a sua obra. Sua inspiração para “As Criadas” foi um caso real ocorrido na França, das irmãs Papin, que mataram a patroa e sua filha no ano 1933.

É o diretor Eduardo Tolentino de Araujo quem explica: Entre o psicodrama, improviso teatral e perversos jogos infantis, as criadas sublimam, através de uma cerimônia fúnebre, o processo de opressão comandado por sua patroa/mãe, nesse tipo de relação promiscua presente em nossa cultura. Jogo situado para além da luta de classes e de Freud, cuja arena é um inferno Sartreano, que flerta com o surrealismo de Buñel e o expressionismo de Bergman, sem esquecer o travestismo tão caro a Genet. Fuga e evasão poética de alto teor lírico e poesia barata que nos remete a Mishima, Fassibinder e Manuel Puig“.

SINOPSE

A peça conta a história das irmãs Clara (Clara Carvalho) e Solange (Mariana Muniz), empregadas no luxuoso apartamento de Madame (Emilia Rey), por quem nutrem ao mesmo tempo ódio e adoração. Basta que Madame saia de casa para que as criadas iniciem um jogo de submissão e poder em que usam as roupas, joias e maquiagens da patroa, imitando sua voz e seus gestos, em requintados e perversos rituais de “faz-de-conta”.

Dia após dia, planejam a morte de sua patroa. Através de cartas anônimas com denúncias, acabam por levar o amante de Madame para prisão. Mas, inesperadamente, ele é libertado e vai ao encontro de Madame, e logo as tramoias das duas serão descobertas pelo casal. Sem saída, as criadas levam seu jogo perverso ao limite.

A MONTAGEM

A encenação transita pelo drama e pela tragicomédia para tratar de uma incômoda relação entre opressor e oprimido. O cenário de Marcela Donato evoca o luxo e a grandiosidade da casa de Madame, onde predominam a cor vermelha em tapetes e longas cortinas entre espelhos e objetos clássicos. O figurino, também de Donato, é também clássico e elegante para Madame, e realista no uniforme das criadas.

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As Criadas
Com Clara Carvalho, Mariana Muniz e Emilia Rey
Teatro João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino, São Paulo)
Duração 90 minutos
06 a 29/10
Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h
$20
Classificação 14 anos

 

CABRAS – CABEÇAS QUE VOAM, CABEÇAS QUE ROLAM

Após duas temporadas de sucesso na capital paulista, o espetáculo CABRAS – cabeças que voam, cabeças que rolam retorna aos palcos paulistanos em temporada popular no Teatro João Caetano, durante o mês de fevereiro.

Sétimo trabalho da Cia Teatro Balagan, a peça está indicada em três categorias do Prêmio Shell 2016 – Iluminação, Figurino e Música. Recebeu também indicações ao Prêmio APCA – na categoria Dramaturgia – e ao Prêmio Aplauso Brasil – nas categorias Direção, Iluminação, Figurino e Espetáculo de Grupo.

Cabras – cabeças que voam, cabeças que rolam tem como tema central a Guerra. Porém, a guerra que encontramos nesta última criação da Cia Teatro Balagan não é o confronto direto e dizimatório que caracteriza a maior parte dos conflitos espalhados pelo mundo.  É a guerra sonhada, esperada, que pressupõe e deseja a relação com o Outro – o Inimigo –, e que está presente em outras dimensões da experiência humana como atos de resistência e criação como, por exemplo, nas manifestações sagradas e nas festividades.

Partindo do Cangaço, dos movimentos de resistência ao Estado, das guerras não oficiais intituladas como revolta, ou banditismo, que sempre foram fortemente reprimidas – e que findaram, em geral, com a decapitação e exposição das cabeças de seus líderes – a investigação das matérias cênicas se delineou em torno da tríade Guerra-Festa-Fé, aspectos intrínsecos do que pode ser uma ação de resistência e luta. A prospecção do tema se desdobrou em outros temas que tecem e constituem o território do espetáculo: o inimigo, a vingança, os conflitos parentais, o nomadismo, a cerca, o ethos guerreiro, o valor da palavra, entre outros.

Do cangaceiro e do samurai, da mitologia hindu e da indígena, da cabra de João Cabral e da cabra de Dionísio, do pandeiro e da rabeca, da dança dos caboclinhos e dos cantos das Caixeiras do Divino, dos estudos biomecânicos e dos arquétipos animais do Kempô nascem os corpos e as vozes – dos atores e das matérias da cena – que narram as pequenas crônicas que compõem o espetáculo.

Cabras é narrado, cantado, tocado e dançado por um bando de dez atores, bando de cabras, que transitam – deixando as marcas das “vinte pegadas de alpercatas” – entre diferentes vozes narrativas – dos homens, dos animais, dos seres, das coisas -, ou seja, entre diferentes perspectivas.

Em Cabras o coro/bando se sobrepõe à noção de protagonista e nenhuma voz se consolida, se não como um lugar, uma perspectiva a ser habitada, temporariamente. Assim cada ator transita por tantos lugares quanto são as acepções dadas à própria palavra cabra: animal, gente, homem, mulher, bandido, polícia, diabo ou as expressões (e mitos) populares como “cabra macho”, “cabra safado”, “cabra marcado”, “cabra da peste”, a “cabra cabriola”, “a puta cabra”, e tantas outras. Como afirma a diretora Maria Thaís “para nós o termo evoca a potência transgressora do próprio animal, que não respeita cercas pois, como o poeta João Cabral de Melo Neto nos diz quem já viu cabra que fosse animal de sociedade?

A composição dramatúrgica, criada por Luís Alberto de Abreu e Maria Thaís, é formada por vinte pequenas crônicas escritas por Luís Alberto de Abreu, organizadas no espetáculo em quatro (04) partes (cada uma contendo cinco textos narrativos):

Guerra – a guerra parental (em que as tensões entre grupos familiares, como um fogo de monturo que, aparentemente apagado, pode reacender-se ao menor vento), do ethos guerreiro, da arma que espera a hora que vai matar.

Guerra-Fé – a guerra inscrita nos corpos – marcados pela escravidão do negro, pela dizimação cultural do índio, pela submissão do mestiço – daqueles que persistem e revelam outras visões de mundos.

Guerra-Festa – a guerra que permite a inversão do mundo – ou a criação de um mundo sem fronteiras – no qual a sua dimensão simbólica e mítica se traduz em dança, poesia, música e vestimenta; e, finalmente,

Guerra – Fogo, Paz, Fogo – a inevitável alternância entre guerra-paz-guerra, dos cabras “que não se espantam com a aspereza das pedras”.

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CABRAS – cabeças que voam, cabeças que rolam
Com André Moreira, Deborah Penafiel, Flávia Teixeira, Gisele Petty, Gustavo Xella, Jhonny Muñoz, Maurício Schneider, Natacha Dias, Val Ribeiro e Wellington Campos.
Teatro João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino, São Paulo)
Duração 120 minutos
03 a 26/02
Sexta e Sábado – 21h; Domingo – 19h
$20
Classificação 12 anos
 
Direção Maria Thaís
Assistente de Direção Murilo De Paula
Texto Luís Alberto de Abreu
Dramaturgia Luís Alberto de Abreu e Maria Thaís
Cenografia e Figurino Márcio Medina
Direção Musical Dr Morris     
Iluminação Aline Santini
Montagem e Operação de Luz Michelle Bezerra
Design Gráfico Regina Cassimiro
Produção Géssica Arjona
Assessoria de Imprensa: Ofício das Letras

 

MOINHOS E CARROSSÉIS

Durante sua trajetória, o Grupo Pasárgada sempre teve enfoque na pesquisa de linguagem estética, privilegiando textos e encenações que abordam temas e conteúdos ligados a valores como: raízes populares, identidade cultural, cidadania, exclusão social e qualidade de vida.

Nesta nova montagem, o grupo reúne na ficha técnica artistas que estiveram presentes nesta história, nomes relevantes para o grupo com­­o Valnice Vieira Bolla e Gustavo Kurlat. Bolla assume novamente, nesta nova versão, cenário, figurinos e adereços. Gustavo Kurlat assina a direção musical. Com sua vasta experiência e competência com o público jovem, Débora Dubois assume a direção geral desta montagem.

A nova montagem de Moinhos e Carrosséis estreia dia 5 de novembro no Teatro Cacilda Becker para temporada até 20 de novembro. Em seguida, o musical engata temporada no Teatro João Caetano, de 3 a 11 de dezembro.

A história de Moinhos e Carrosséis se passa em um ano no futuro, P. e F., junto a outros visitantes, fazem uma viagem para um museu, controlada rigidamente por um Sistema de Segurança. Atraídos por uma melodia, os dois saem do roteiro e penetram numa galeria desconhecida, onde descobrem figuras que despertam sentimentos que têm um profundo significado para a sobrevivência da espécie humana. “O texto não tem o tom de caos e catástrofe como se o futuro estivesse comprometido, mas, ao mesmo tempo, é uma metáfora da realidade que estamos vivendo atualmente, que assusta e amedronta pela falta de esperança que nos envolve e nos impede de enxergarmos novos rumos”, analisa o dramaturgo José Geraldo Rocha.

Sempre tive grande fascínio pela literatura de ficção científica e alguns autores clássicos me inspiraram, entre eles, Julio Verne, Carl Sagan e Ray Bradbury. Na obra, no conto “Um Som de Trovão”, Bradbury leva o leitor a uma viagem ao passado, através de uma máquina do tempo, o conto me inspirou para escrever um enredo que permitisse falar de emoções e sentimentos que possam manter vivos nossos sonhos de liberdade e escolhas”, comenta o autor.

Utilizando o jogo tradicional e o jogo teatral como instrumento de criação, a montagem conta com a atuação de músicos-atores tocando e cantando ao vivo com a riqueza de cenários e figurinos que permitem manipulações e transformações cênicas constantes.

Moinhos e Carrosséis
Com Alessandro Aguipe, Angela Lyra, Kaká Degáspari, Lilian de Lima, Luian Borges e Ricardo Aguiar. Stand-in: Janaína Rocha e Thiago França
Duração 55 minutos
Sábado e Domingo – 16h
$10
Classificação livre
 
Teatro Cacilda Becker (R. Tito, 295 – Lapa, São Paulo)
05 a 20/11
(08, 09, 15 e 16/11 – entrada gratuita)
Teatro João Caetano (R. Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino, São Paulo)
03 a 11/12
 
Texto: José Geraldo Rocha
Direção: Débora Dubois
Assistente de direção: Felipe Correa
Direção de movimento: Fabricio Licursi
Cenário e figurinos: Claudio Cretti e Valnice Vieira Bolla
Criação e confecção de adereços: Mariano Pereira e Vanice Vieira Bolla
Direção musical e composição: Gustavo Kurlat
Letras das canções: José Geraldo Rocha e Gustavo Kurlat
Iluminação: Luiz Alex
Cenotécnicos: Alisson Nascimento Cabral e Fernando de Vito Luna
Costureira: BenêCalistro
Direção de produção: Kiko Rieser
Produção executiva: José Geraldo Rocha e Valnice Vieira Bolla
Coordenação geral do projeto: José Geraldo Rocha
Fotografia: Heloísa Bortz
Vídeo: Ricardo Montenegro
Assessoria de imprensa: Pombo Correio (Douglas Picchetti e Helô Cintra)
Designer gráfico: Kleber Góes
Realização: Secretaria Municipal de Cultura
Projeto contemplado na 4ª edição do Prêmio Zé Renato