11 SELVAGENS

Espetáculo imersivo onde a plateia acompanha de perto várias situações cotidianas que desencadeiam cenas de violência e intolerância, 11 Selvagens volta em cartaz no Pequeno Ato de 7 a 29 de março, com sessões aos sábados e domingos, às 19h. A peça integra também a programação do FarOFFa, uma mostra off da MITbr, com sessões dias 14 e 15 de março com valor de ingresso “pague quanto puder”.

O elenco reúne os atores Anna Galli, Beatriz Silveira, Bianca Lopresti, Bruno Lourenço, Felipe Aidar, Gabriel Gualtieri, Inês Bushatsky, Isabella Melo, Jonatan Justolin, Fhelipe Chrisostomo, Gustavo Bricks, Mariana Marinho, Mariana Beda, Mau Machado, Rafael Carvalho e Thiago Albanese.

Com texto e direção de Pedro Granato, a peça estreou em 2017 em meio ao clima das manifestações que ocupavam o Brasil e foi ganhando contornos mais densos com a polarização das eleições de 2018.

Assim como em outras montagens, Pedro Granato propõe uma experiência imersiva ao espectador, arrastando-o para dentro da cena, que se desenrolam a poucos metros do público, por vezes até na cadeira ao lado, e a identificação é imediata. Da violência à sensualidade, do absurdo ao trivial, são onze quadros interligados como uma camada de sociabilidade que pode rapidamente ser rompida em nossos dias.

O ponto de partida foi a tensão crescente no país em 2016, mas parece que o espetáculo foi criado hoje. As manifestações, a violência, a sensação de impotência que mexem com os extremos, deixam a peça muito atual”, fala Granato.

O público acompanha tudo de perto, como se a plateia estivesse na mesma situação dos atores. Em algumas situações é cúmplice e voyeur, já que as cenas passeiam pelos diferentes lados da arena colocando-os lado-a-lado.

A peça ficou praticamente um ano em cartaz em 2017 e então passamos pelo Teatro de Arena na época da prisão do Lula, fizemos uma temporada entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais no Centro Cultural São Paulo e em 2019 circulamos pelo interior do estado em pleno país polarizado. A cada momento faz mais sentido, a selvageria da polarização se amplifica e sentimos mais vontade de seguir com essa peça, que retrata a temperatura de nossos dias, para a geração jovem. O jogo com o espaço cênico tem esse aspecto imersivo de colocar o espectador na situação em que os atores estão trazendo. É a sensação de que tudo poderia acontecer com qualquer pessoa ali presente”, explica o diretor e dramaturgo.

Cada quadro é levado ao paroxismo e quando parece não haver mais para onde ir, a música toma o ambiente e os atores extravasam em coreografias. O figurino e a luz se baseiam em elementos minimalistas que são reconstruídos para cada cena. A intervenção musical dá agilidade à narrativa e permite uma explosão estética para além da verossimilhança. Histórias em que a plateia se identifica, músicas contemporâneas, tudo está equalizado para dialogar profundamente com a geração atual. “São fragmentos que formam um conjunto em que se observa essa polaridade e explosão que a gente percebe nas relações hoje em dia”.

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11 Selvagens

Com Anna Galli, Beatriz Silveira, Bianca Lopresti, Bruno Lourenço, Felipe Aidar, Gabriel Gualtieri, Inês Bushatsky, Isabella Melo, Jonatan Justolin, Fhelipe Chrisostomo, Gustavo Bricks, Mariana Marinho, Mariana Beda, Mau Machado, Rafael Carvalho e Thiago Albanese

Teatro Pequeno Ato (Rua Doutor Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 70 minutos

07 a 29/03

Sábado e Domingo – 19h

$40 (Dia 14 e 15/03 – pague quanto puder)

Classificação 16 anos

PANO. FIM.

Com estreia marcada para dia 5 de outubro, sábado, 20h30, no Teatro Pequeno Ato, o primeiro espetáculo do Grupo Pano, chamado Pano. Fim., parte da pergunta sobre o que artistas podem fazer frente à crise do teatro para encenar o que seria a última de todas as peças do mundo. A direção é de Caio Silviano, que também assina dramaturgia ao lado de Lucas Sanchez. No elenco, Cecília BarrosGeorge LucasHenrique ReisIan Noppeney e Lucas Sanchez. O grupo é composto por artistas movidos por reflexões sobre o exercício da arte cênica.

A peça traz em cena três jovens atores que se propõem a executar a última peça do mundo ao se depararem com o fim iminente e irreversível do teatro. A tarefa que tomam para si resulta em situações que transitam entre o trágico e o patético, revelando o olhar dos artistas sobre o fazer teatral atualmente e sua vontade de lutar contra a crise que está instaurada na área. A narrativa se estabelece no último teatro do mundo, com localização e temporalidade indeterminadas, mas que encontra algumas referências textuais que fazem alusão à contemporaneidade.

A ideia para a peça começou em um grupo de estudos promovido por Caio Silviano, Lucas Sanchez e George Lucas. Nos encontros, textos teóricos apoiaram um pensamento sobre a crise do teatro e da cultura. As discussões estavam embasadas em três eixos: o primeira era filosófico, tendo como principal representante o conceito de indústria cultural proposto por Adorno e Horkheimer; o segundo era fático e tinha como intuito observar o contexto em que a cultura está inserida hoje, utilizando como norte para reflexão o livro A Pedagogia do Espectador, de Flavio Desgranges; e o último eixo era sobre a questão da dramaturgia nos dias de hoje. O foco dessa pesquisa é a noção da crise do drama, um olhar sobre os percursos do teatro ao longo da história e de suas mudanças de gênero e pensamento cênico.

Há um embate que vem pela crise do teatro que nós já estamos acostumados, mas hoje em dia estamos nos deparando com algo de um âmbito mais geral, uma verdadeira crise da cultura. Vivemos uma sensação constante de que faltam ferramentas para não deixar que o fim chegue, mas muitas vezes tomamos escolhas e seguimos caminhos que não são tão eficientes quanto gostaríamos”, conta Caio.

Em Pano. Fim., os atores buscam na cena diferentes gêneros e períodos para tentar a chance de dar continuidade à arte teatral: com adereços e mudanças de figurinos, eles passam pela estética épica brechtiana e clownesca, entre outras, em apelos à salvação da cena. O cenário é quase desértico e os elementos que o compõem remetem à um espaço que está sendo destruído. “Tudo que está na cena, como um carrinho de mão ou um baú, é usado pelos atores para tentar fazer essa reforma”, completa o diretor.

A peça foi elaborada durante dois anos e passou por mudanças frequentes desencadeadas por novidades na área da cultura e pelo contexto político. O período também marcou a consolidação do Grupo Pano, que pretende dar início a uma nova montagem após a temporada de Pano.Fim. “Nossas peças devem atender a diferentes propostas que levantarmos em grupos de estudo, o que funcionou muito bem nesse trabalho”, completa o diretor.

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Pano. Fim.

Com Cecília Barros, George Lucas, Henrique Reis, Ian Noppeney e Lucas Sanchez

Teatro Pequeno Ato (R. Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 80 minutos

05/10 até 06/11

Sábado – 20h30, Domingo – 19h30

$30

Classificação 12 anos

INHAI – COISA DE VIADO

Em INHAI – COISA DE VIADO estudos científicos, fatos históricos e notícias recentes são usados como material cênico pelo Coletivo Inominável, que bebe na fonte dos conceitos e procedimentos do Teatro Documentário. Resposta poética ao clima de convulsão social e conservadorismo que assola o mundo contemporâneo, a montagem estreia dia 6 de setembro, sexta-feira, às 21h, no Teatro Pequeno Ato.

Partindo da pergunta “o que é ser viado na cidade de São Paulo em 2019?”, o espetáculo tem dramaturgia de Fernando Pivotto e Cezar Zabell, que assina a direção. Pivotto também está em cena ao lado de Cayke Scalioni e da drag queen Alexia Twister. INHAI– COISA DE VIADO é um espetáculo-celebração numa época em que comemorar a identidade gay é um ato de resistência (o título da peça já brinca com a expressão de falar “e aí” popularizado pela drag queen Sylvety Montilla), além de ser uma reflexão sobre a homofobia no Brasil, desde a violência imposta pelos jesuítas a índios que desviavam a heteronormatividade europeia até os dias atuais.

A montagem também marca as quatro décadas de história do movimento LGBTQ+ e traz à cena relatos de experiências de homens homossexuais que vivem na São Paulo do início do século XXI, marcando semelhanças e divergências com os integrantes do grupo. Para isso, a peça passa pelos estágios da vida: desde a infância à vida adulta e ao o questionamento sobre o futuro e os anseios de tempos melhores.

Ponto de encontro, debate e partilha

Investindo nos recursos documentais apresentados em esquetes e monólogos e apoiado em uma dramaturgia não-linear, INHAI – COISA DE VIADO explora o conceito de “apresentar” ao invés de “representar”, colocando os atores num estado cênico que não é o da criação de personagens naturalistas ou farsescos, mas sim o do estabelecimento de uma presença performativa.

Para o dramaturgo e diretor Cezar Zabell, a ideia é valorizar a potência cênica de recursos simples ao invés de estruturas complexas. “A direção se apoiou na vivência dos atores e nos anseios do que eles queriam dizer ao público. Assim criei paralelos para falar do macro, pelo micro, e trouxe os atores para uma relação mais próxima com a plateia. Uma vez dentro do espaço cênico, público é convidado a participar ativamente do espetáculo, seja dando sua opinião sobre determinado tema ou jogando com os atores”, explica ele.

INHAI – COISA DE VIADO deseja ser, então, a reflexão dos homens gays do coletivo sobre suas sexualidades, identidades e necessidades assim como também deseja ser um ponto de encontro, debate e partilha. “O espetáculo pretende ser a denúncia da violência que ainda sofremos, mas também a celebração de nossa identidade. No país que mais mata LGBTQ+ no mundo, celebrar a nossa existência nos parece uma potente estratégia contra a violência, uma urgência e um direito”, diz o dramaturgo e ator Fernando Pivotto.

O espetáculo também traça alguns paralelos entre o veado (animal) e o viado (gay) mesclando a anatomia dos bichos e dos homens, simbologia e mitologia. Na mitologia chinesa, por exemplo, o veado representa fertilidade e saúde e é símbolo de virilidade em países do hemisfério norte, mas no Brasil ganhou conotação contrária. Por aqui, viado, na linguagem de rua significa homossexual masculino passivo.

Homofobia no Ocidente

Para levar o espetáculo ao palco, o Coletivo Inominável pesquisou a história do movimento LGBTQI+ no Brasil e encontrou vasto material de grupos de militância, como o Somos e o Grupo Gay da Bahia. Fernando Pivotto e Cezar Zabell se debruçaram sobre artigos de estudiosos do tema, como João Silvério Trevisan, James N. Green e Bruno Bimbi, além dos documentários São Paulo em Hi-fi, de Lufe Steffen; Abrindo o Armário, de Dário Menezes e Luís Abramo e Lampião da Esquina, de Lívia Perez.

Foram materiais importantes para nos mostrar como era a vida dos homossexuais em períodos distintos no país. Utilizamos também notícias recentes como material cênico, de modo que cenas já existentes podem ser alteradas e cenas novas podem surgir”, conta o diretor.

Já Fernando Pivotto explica que INHAI – COISA DE VIADO expõe as motivações sociais e políticas da homofobia no país e no Ocidente. “Pela complexidade do assunto e pela pluralidade presente sob o guarda-chuva LGBTQ+, o espetáculo é um recorte deste tema, focando especificamente nos depoimentos de homens gays. Muito mais do que acentuar o protagonismo gay dentro do movimento, a ideia da peça é promover um recorte dentro desta diversidade para olhar com cuidado para o assunto de nosso estudo, analisando poeticamente e com responsabilidade a já complexa situação dos homens gays de agora”.

Soldados em miniatura

Com um triângulo rosa (em referência à categorização dos prisioneiros homossexuais em campos de concentração nazista) feito de lâmpadas fluorescentes, a cenografia de INHAI – COISA DE VIADO se apoia também em projeções de vídeos e informações, como mapas-múndi com países onde ainda é crime ser homossexual.

O figurino é composto de macacões curtos em veludo na cor marrom/ caramelo, que evocam a figura do animal veado, e vários adereços, como bonequinhos de soldados em miniatura, referência ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático, condição que é desenvolvida ao se passar por situações de risco, perigo e tensão extremos. Soldados que voltam de zonas de conflito geralmente desenvolvem o transtorno e estudos recentes apontam que os homossexuais contemporâneos, que vivem em centros urbanos também. Já a trilha sonora é composta por músicas que trazem significados para os gays de hoje.

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Inhaí – Coisa de Viado

Com Alexia Twister, Cayke Scalioni e Fernando Pivotto

Teatro Pequeno Ato (Rua Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 80 minutos

06 ate 28/09

Sexta e Sábado – 21h

$40

Classificação 18 anos

A PAIXÃO DE BRUTUS

O clássico Júlio César, de William Shakespeare (1564-1616), escrito em 1599, ganha os palcos de uma maneira diferente.  A Paixão de Brutus traz o ator Pedro Sá Moraes se alternando em 15 personagens e um narrador, além de cantar e tocar músicas originais, para colocar em cena uma história que traduz questões perenes da política e da vida em sociedade. Com direção do argentino Norberto Presta, o solo de teatro-canção está no Teatro Pequeno Ato. A temporada tem sessões sábados e domingos, sempre às 20h, até 1º de setembro.

Peça inglesa do fim do século XVI sobre acontecimentos da Roma do século I a.C., Júlio César é um ensaio sobre conspiração e amizade, inveja e política, superstição e poder. A atualidade dos questionamentos levantados na peça foi o que despertou no artista a necessidade de encená-la. “O texto me arrebata porque revela muito sobre o nosso mundo – o ódio político, o jogo de cena, a vaidade – mas não fecha as questões. Não há um grande vilão como em outras peças de Shakespeare, como um Ricardo III ou um Iago (de Othelo). O que existe é um grande espelho, um leque rico de personagens, equivocados, mas fundamentalmente humanos”, conta Pedro Sá Moraes.

Na adaptação, assinada pelo próprio ator, as ideias, diálogos e ritmos do dramaturgo inglês se desdobram em composições inéditas, inspiradas em fontes diversas, doscantastori italianos aos cordelistas do nordeste brasileiro, das composições para teatro de Chico Buarque, Vinícius e Guarnieri à épica de Bertold Brecht.

Em uma das canções, um samba-canção de inspiração buarqueana, o personagem Brutus, tenta convencer a si mesmo dos méritos da conspiração: “O homem precisa morrer / Ainda que pessoalmente eu não tenha motivo / O homem precisa morrer / São coisas que se há de fazer pelo bem coletivo.” O irreverente Caska explica a Brutus e Cássius num funk irônico o que acontecera no Coliseu para César ficar tão perturbado. “Não prestei tanta atenção / foi comédia surreal / não gasto saliva em vão / Meu nome é Caska / eu falo o essencial! // (…) o homem ficou sufocado, desnorteado com aquele fedor / e caiu no chão de cimento, com a boca espumando, perdeu a cor!

Em cena, com um violão, o ator e músico entrelaça em uma só partitura a musicalidade dos diálogos à intencionalidade das canções. Ao longo do processo de montagem, que atravessou 2017 e 2018, Pedro e o diretor Norberto Presta chegaram à conclusão de que havia algo de específico na linguagem que desenvolviam, e que não era exatamente um musical. Teatro-canção foi o nome que deram a esta forma de fazer teatro: “A música não está só nas canções, ela é o guia permanente. A voz dos personagens, o ritmo e a intensidade dos diálogos, são regidos por um sentido musical. Os movimentos também nascem da música, como uma dança,” conta o ator.

Ao se permitir liberdades na adaptação de um texto canônico, o artista lança um olhar contemporâneo para o universo Shakespeariano. Referências do cinema, comoCésar Deve Morrer (2012), longa com direção dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, ajudaram a encontrar o tom do diálogo com a obra – franco e irônico, sem perder a gravidade. Este tom se revela já na canção de abertura, composta na forma de um martelo agalopado, estilo utilizado por cordelistas e cantadores no nordeste do país:

…esse caso regressa à minha mente

pois a história não anda só pra frente

– Já dizia um alemão muito citado –

Acontece de modo duplicado:

uma vez é tragédia, a outra é farsa

O autor é figura controversa,

mas falava de um golpe de Estado…

O cenário de Doris Rollemberg, a iluminação de Bernardo Gondim e o figurino, criado coletivamente, são propositadamente minimalistas, indicam a fricção de poder e conspiração, fausto e decadência, que marcam a obra shakespeariana. Mas o fazem de modo sugestivo, sutil. Como tudo no espetáculo, “a intenção é deixar espaço para que o público crie suas imagens e seus entendimentos. Num momento que nos impele a simplificações e verdades absolutas, o teatro pode ser um convite à reflexão pessoal genuína – sobre o pessoal e o coletivo, sobre o ontem e o hoje. A Paixão de Brutus quer ser este convite,” conclui o ator.

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A Paixão de Brutus

Com Pedro Sá Moraes

Teatro Pequeno Ato (Rua Dr. Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 70 minutos

13/07 até 01/09

Sábado e Domingo – 20h

$40

Classificação Livre

VIDAS MEDÍOCRES OU ALMAS LÍRICAS

Com temporada no Teatro Pequeno Ato de 6 de abril a 26 de maio, a Companhia Alvorada, que brindou o público em 2018 com o espetáculo “É Samba na Veia, é Candeia” – sucesso de público e crítica – prepara-se para voltar aos palcos com uma nova montagem. Com a peça “Vidas Medíocres ou Almas Líricas” o grupo apresentará uma mescla de cenas de quatro textos principais do dramaturgo russo Anton Tcheckhov, além de trechos de cartas e contos do autor.

Para o diretor da companhia, Leonardo Karasek, a escolha por Tcheckov se dá por reconhecer em sua obra questões universais e contemporâneas, que, embora escritas originalmente há cerca de 120 anos, remetem a conflitos entre forma e conteúdo, passado e futuro, vida e morte e destino e tristeza. O autor russo, na opinião de Karasek, mantém uma fábula em seu enredo, no qual a unidade de tempo e espaço persiste e o diálogo oscila entre a relação dramática e a simples reflexão do mundo concreto e de um mundo de elucubrações.

Na obra de Tchekhov, seus diálogos dizem pouco. A eloquência está nos solilóquios, chamados por Peter Szondi, em “Teoria do Drama Moderno”, de “lírica da solidão”, na qual existe uma liberdade nos silêncios, pausas e descontinuidade de tempo e espaço”, afirma o diretor.

Mas, e o samba? Segundo Karasek, o genuíno ritmo brasileiro está presente em sua segunda montagem de forma orgânica. Nada foi planejado. No decorrer da construção do texto, os sambas surgiam em sua mente. Letras e melodias que falavam do destino, da melancolia e da natureza da vida. “Afinal, seria a tristeza a essência primária da alma lírica humana?”, induz o diretor à reflexão.

Com esses questionamentos em mente deu-se início a carpintaria cênica e a criação da identidade visual da peça, que também teve inspiração em outro russo, o diretor de cinema Andrei Tarkovsky, vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cinema de Cannes em 1980, com o filme “Stalker”, de 1979.

Neste novo espetáculo, o público irá se deparar com esses espectros, esses fragmentos, objetos abandonados, musgo, poeira, ferrugem, fotografias gastas pelo tempo… Signos que remetem à perenidade e à atemporalidade”, adianta o diretor.

Em relação às provocações que a peça levará ao palco, Karasek exemplifica. “Se o personagem Pétia, de ‘O Jardim das Cerejeiras’, realça que tudo que acontece neste mundo terreno ‘não passa de gesticulação’, de uma espécie de entretempo entre o nascimento e a morte onde criamos expectativas, frustrações, desejos, alegrias e rancores em relação à vida, por outro lado nós amamos, odiamos, casamos, trabalhamos, viajamos, fazemos arte, filosofamos. Nesse contexto, a pergunta central desta produção é: será que isso tudo vale a pena? Será que isso tudo tem algum sentido? Esses espectros passam a sentir necessidade de dialogar e não importa, esta é a nossa única vida e seguimos nela”, complementa.

Ainda de acordo com o diretor, a poética desta encenação reside na enfatização do eu lírico e o eu dramático. O homem social e o homem subjetivo. A partir disso, abrem-se caminhos para se refletir sobre a solidão, este sentimento que ronda a humanidade como uma sombra e é tema recorrente numa época de ilusões e idealismos desfeitos.

Por sua vez, a atriz e produtora executiva da peça, Rita Teles, afirma que o ponto fundamental de “Vidas Medíocres ou Almas Líricas” reside no equilíbrio da provocação do texto de Tchekhov com a genialidade lírica da poética de sambas de autores como Cartola, Paulinho da Viola, Manacéa da Portela e Nelson Cavaquinho. “Teremos até uma polca do Jacob do Bandolim”, diz.

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Vidas Medíocres ou Almas Líricas

Com Rita Teles, Aloysio Letra, César Figueiredo Cantão, Vanise Carneiro e Flávio Gerab

Teatro Pequeno Ato (Rua Dr. Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 70 minutos

06/04 até 26/05

Sábado – 21h, Domingo – 19h

$40

Classificação: 12 anos

O DESMONTE

Amarildo Felix despontou no meio teatral durante sua participação na 7ª turma do Núcleo de Dramaturgia SESI – British Council, de 2014, com o texto ‘Solilóquios’, uma história de amor sob o prisma da incomunicabilidade, levado ao palco pelo SESI, com direção de Johanna Albuquerque, que ganhou destaque na crítica, em 2015.

O Desmonte, peça que estreou no Sesc Consolação no mês de janeiro e que agora parte para a segunda temporada no Teatro Pequeno Ato (Rua Doutor Teodoro Baima, 78 República – Centro), a partir de 7 de abril, é um espetáculo solo fruto da parceria entre autor e ator — Amarildo Felix (dramaturgia e direção) e Vitor Placca (atuação). A peça trata da chegada de tempos tristes em decorrência do fim de um relacionamento amoroso, da melancolia que paira num apartamento na cidade, onde um homem avesso a amigos e a visitas vive só e recebe, na madrugada de mais uma noite solitária, uma visita inesperada: um Rato surge para destruir tudo e dar novo sentido à sua vida.

Felix e Placca formaram-se pela Escola de Arte Dramática – EAD/ECA/USP com a montagem Danton.5, adaptação de “A Morte de Danton”, de Georg Büchner, com Supervisão de Cristiane Paoli Quito e José Fernando Peixoto de Azevedo. O espetáculo foi concebido e dirigido coletivamente pelo seu elenco que também assinou a dramaturgia e a direção.

Logo após Danton.5, duas outras experiências tornaram-se chave para o desenvolvimento de O Desmonte: a do Núcleo de Dramaturgia Sesi British Council por Amarildo e a do Centro de Pesquisa Teatral – CPT de Vitor.

Do desejo comum de aprofundar as experiências individuais surgiu a parceria para a criação de O Desmonte, que tomou corpo pela experimentação de novas formas dramatúrgicas em permanente diálogo com o processo criativo do ator.

Acredito que O DESMONTE representa uma virada de chave tanto para mim quanto para o Vitor Placca. É acima de tudo um desejo de bancar os nossos projetos, ter voz, um desejo de agir, um grito diante destes tempos tristes. Não havia como esperar.  É preciso estar para o jogo, debatendo publicamente, pois Teatro se faz fazendo” , diz o dramaturgo e diretor do espetáculo Amarildo Felix.

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O Desmonte
Com Vitor Placca. Voz off: Bruna Miglioranza
Teatro Pequeno Ato (Rua Doutor Teodoro Baima, 78 – República, São Paulo)
Duração 60 minutos
07/04 até 06/05
Sábado – 21h, Domingo – 19h
$40
Classificação 14 anos

SOLO IDEAL: ARENOSO

Ator e comediante, Pedro Casali estreia Solo Ideal: Arenoso, em temporada no Pequeno Ato, de 16 de março a 27 de abril, com sessões sempre às sextas-feiras, às 21h.

Neste solo de comédia apresenta um espetáculo em homenagem ao seu falecido pai. Com um jeito peculiar de observar a vida, o ator coloca com bom humor suas experiências pessoais no palco.

A ideia do texto surgiu depois da morte do seu pai em 2006, Casali começou a escrever piadas sobre o delicado assunto, com a intenção de amenizar a dor. Com o passar do tempo foi aprimorando e criando um roteiro, enquanto se dedicava ao stand-up com temas mais comuns. “Num show de stand-up, você tem em média 15 minutos no palco, dessa forma é mais difícil falar de temas tão sensíveis. Já no solo, é possível abordar essa narrativa dramática e a condução é mais natural”, explica.

Filho de uma brasileira com um argentino, criado em Ilhabela no litoral paulista, conta que sofria bullyng na infância. O pai sempre foi seu incentivador e buscava no humor uma forma de encarar os momentos mais difíceis. “Quando mudamos para São Paulo meu pai falou: ‘Aqui ninguém te conhece, você pode ser quem você quiser’. Então eu resolvi ser eu mesmo e não ter mais medo por ser diferente. Foi a partir disso que aproveitei cada peculiaridade minha para fazer graça. Filho de argentino, caiçara, gordinho…tenho um material infinito”, brinca. Apesar do tema sensível e por trazer em cena uma relação tão íntima acredita que seu pai ficaria feliz com o espetáculo. “Ele me dizia que a melhor forma de encarar a morte, é rindo dela”.

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Solo Ideal: Arenoso
Com Pedro Casali
Teatro Pequeno Ato (Rua Doutor Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, São Paulo)
Duração 60 minutos
16/03 até 27/04
Sexta – 21h
$40
Classificação 14 anos