EU DE VOCÊ

Não há melhor espelho do que o outro. Sabemos quem somos a partir do que reverberamos. É́ urgente ver o outro, olhar pelo olhar do outro, ser eu de você. O que seria de nós se pudéssemos ser eu de você e você de mim, deixando-nos ambos atravessar por nossas experiências? Esta é a temática do meu novo espetáculo, Eu de Você, que estreia no dia 19 de setembro e que marca também a volta do Teatro Vivo à cena cultural paulistana após uma grande revitalização.

Sou do tipo de pessoa que vai ao mercado e volta com uma história. Sempre me encantei pelo cotidiano, sempre me fascinaram as diversas formas de vida e a criatividade de cada um para resolver nossos eternos problemas. O que nos difere? O que nos iguala? O que é capaz de tornar cada um de nós especial?

Também sou do tipo de pessoa que ama os escritores, os poetas, os músicos, os artistas. São eles que nos salvam da mediocridade, que embelezam nossos dias comuns, que dão voz à nossa angústia e palavras para o que nos fica na garganta.

Que seria de nós sem os poetas? E o que seria deles sem a vida comum?

É dessa mistura que surge a ideia de nosso Eu de Você. O que tem em comum a Cris, o Paulo Leminski e o Zezé di Camargo? Tchekhov, eu e Francisco? Pelo que a avó do Felipe estava chorando enquanto os Beatles compunham mais uma canção? O que fará o Wagner quando ouvir o que Chico Buarque fez com o seu também coração partido?

Costumo dizer que a arte ajuda a gente a viver, que quem lê Dostoiévski e Fernando Pessoa, no mínimo, vai sofrer mais bonito. Porque sofrerá com companhia, sofrerá com a cumplicidade dos poetas. Entenderá que fazemos parte de algo maior, que pertencemos à roda da humanidade, seus dilemas eternos e sua fatídica imperfeição.

Podemos, assim, rir de nós mesmos. Porque rimos do que entendemos. Rimos quando conseguimos assistir a própria vida enquanto ela passa. Acredito no humor como uma arma poderosa para a ampliar nossa consciência e sabedoria. Acredito no Teatro como um ritual de reflexão. E acredito que há uma fronteira preciosa no ofício de representar, um fino fio entre o humor e o drama que é um terreno fértil de comunicação, meu lugar favorito. É aí que mais uma vez quero estar.

Resolvi subir no palco para um solo, mas jamais estarei sozinha. Estarei com a Fátima, com o Bruno, com a Clarice, com a Dona Maria. E, como não poderia deixar de ser, com os poetas. Convidamos artistas de extremo talento, criadores cujos trabalhos admiramos há muito tempo, para juntos, em parceria, tecermos este bordado da vida com a arte.

Luiz Villaça, premiado cineasta, roteirista, criador e diretor de teatro de reconhecimento internacional, que tem nos tocado sempre com seu humor delicado, sua compreensão humana e sua inquietude, criando pequenas pérolas de nossa cena no cinema e no teatro. A diretora de arte Simone Mina, multiartista, professora, figurinista, artista plástica, cenógrafa, premiada por importantes parcerias na cena teatral. Rafael Gomes, criador, roteirista, dramaturgo e diretor de teatro e de cinema, responsável por montagens teatrais de reconhecimento nacional. Kenia Dias, pesquisadora, encenadora e pedagoga no campo da dança e do teatro, desenvolve trabalhos que tem a corporalidade, teatralidade e composição como diretrizes, com o foco nas dinâmicas do movimento e suas relações com a improvisação. E Fernanda Maia, musicista, diretora musical, maga extraordinária da composição de vozes para diversos espetáculos. Pessoas que admiro muito e que tenho a imensa honra de estar na companhia para este trabalho.

Temos a alegria de contar, desta vez, com o patrocínio de dois novos parceiros, empresas que acreditam no valor da Arte, da Cultura, do Teatro e, principalmente, dos Artistas para o contínuo enriquecimento subjetivo e cultural de um povo, imprescindíveis para o crescimento de um país: BB Seguros e Vivo, que através da Lei Federal de Incentivo à Cultura, tornam a criação deste trabalho uma realidade. E uma alegria maior ainda, que é estrear com a abertura do novo Teatro Vivo, um equipamento moderno e necessário para o público de São Paulo e produções de todo país.

Nosso Eu de Você foi construído na sala de ensaio. Nossa matéria prima são as histórias reais costuradas com pérolas da literatura, música, imagens e poesia. Recolhemos as histórias. Anunciamos no jornal, nas redes sociais e fizemos uma delicada seleção de todo o material que recebemos.

Vivemos tempos estranhos que nos convidam diariamente ao isolamento, ao medo do convívio e ao individualismo. Uma espécie de epidemia que nos tem aprisionado atrás de nossas telas geniais, que nos conectam e distanciam em alternância estroboscópica num abismo de encantamento e retórica. Um tempo que tem confundido e abalado a nossa esperança. Tenho a impressão de que cada dia nos distanciamos mais da potência que poderíamos ser se estivéssemos realmente conectados e acredito que o Teatro ainda é capaz de promover este milagre.

Muitas vezes, estou em cena e me comovo com o próprio evento teatral. Penso naquele pacto oculto entre nós, atores e público, quinhentas, seiscentas pessoas, celulares desligados, o silêncio coletivo, as risadas, todos concentrados no mesmo ponto, conectados de verdade, num milagre de presença. Recebemos sempre o público na porta para fazê-lo perceber ainda mais, que estamos, sim, inacreditavelmente, verdadeiramente, todos ali.

Acredito no que esta percepção de presença é capaz de provocar, na potência desse poderoso ritual de reflexão chamado Teatro. Acredito porque vi ele acontecer. Rodamos o Brasil há mais de dez anos com as produções de nossa NIA TEATRO e já colecionamos cerca de 700.000 espectadores, sempre fazendo espetáculos das periferias aos grandes centros, de pequenas a grandes cidades. O retorno que tivemos deste público tão diverso, a maneira com que vimos eles  saírem do teatro, me enchem de esperança.

Agora vamos para EU DE VOCÊ. Contando histórias reais, rompendo a fronteira entre palco e plateia, fato e ficção, pedaços de vida embalados pela arte, pretendendo ampliar o nosso Teatro para uma real experiência de empatia

Denise Fraga

São Paulo, setembro de 2019

FACE

Eu de Você

Com Denise Fraga

Teatro Vivo (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 – Morumbi, São Paulo)

Duração 80 minutos

19/09 até 15/12

Sexta – 20h, Sábado – 21h, Domingo – 19h

$50/$70

Classificação 12 anos

QUARTO 19

QUARTO 19, espetáculo solo de Amanda Lyra construído a partir do conto No Quarto Dezenove (To Room Nineteen), da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013), prêmio Nobel de Literatura em 2007, reestreia dia 22 de setembro no Teatro Vivo. A direção é de Leonardo Moreira, dramaturgo e diretor da Companhia Hiato, de São Paulo.

O conto To Room, publicado pela primeira vez em 1963, conta a história de uma mulher de classe média casada e com quatro filhos que se vê despersonalizada pelo casamento burguês, pela maternidade e pela fragmentação de sua identidade feminina.

As questões abordadas pelo texto e pela encenação de Quarto 19 dizem respeito principalmente às mulheres, mas não só a elas. Nesse conto, Lessing aborda com simplicidade e força alguns de seus temas mais persistentes, como o cabo de força entre o desejo humano e os imperativos do amor, da traição e da ideologia, as tensões entre o doméstico e a liberdade, a responsabilidade e a independência. A construção da identidade, o trabalho para estabelecê-la, defini-la e refiná-la, talvez seja o fio que liga toda a obra de Lessing.

A ATUALIDADE DO TEXTO

A atriz Amanda Lyra, também idealizadora do projeto e tradutora do texto, conta: “To Room 19 foi publicado pela primeira vez em 1963. Esta peça estreou em 2017. Tanto tempo no fim das contas parece tão pouco. É doloroso perceber a universalidade e atemporalidade desse texto. Perceber que estamos nos debatendo com mesmas questões tantos anos depois, com o movimento feminista já em sua quarta vaga.

Mas Quarto 19 vai além de um retrato da condição da mulher. O conto de Lessing questiona o ideal de felicidade da família burguesa, o modelo social racional e inteligente que soterra nossa sensibilidade, nossa selvageria. É uma grande tarefa lutar pela sobrevivência da própria identidade numa sociedade com modelos tão sufocantes. O quarto 19, aqui, é mais do que um espaço físico. Ele é uma metáfora de libertação. Um espaço/estado onde qualquer pessoa pode ser o que quiser, a despeito do que se exige dela na sociedade.”

A personagem do conto está consciente de que é prisioneira de alguma coisa maior e, em seu discernimento embotado, passa a acreditar que está doente. Mas o mal que a aflige está também – e talvez principalmente – no âmago da sociedade, e não só em algum lugar escondido das anomalias individuais. A personagem vive assim a luta silenciosa de muitas outras mulheres. Uma luta gigante, onde o desejo de autenticidade se vê barrado por princípios e modelos culturais.

A MONTAGEM

O cenário e a luz de Marisa Bentivegna criam um espaço limpo e claro, que traz somente uma parede ao fundo, um carpete e uma poltrona. Na cena predominam os tons de verde. O figurino, realista, é de uma mulher comum, e suas cores dialogam com o tom geral da montagem. É através do trabalho da atriz que todos os espaços são desenhados – a casa da família, o jardim, o quarto 19.

CARMEN

Quarto 19

Com Amanda Lyra

Teatro Vivo (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460, Morumbi – São Paulo)

Duração 75 minutos

22/09 até 07/10

Sábado – 21h, Domingo – 19h

$40

Classificação 16 anos

A GAIOLA

A bem-sucedida adaptação teatral do livro infantojuvenil A Gaiola, de Adriana Falcão, que foi indicada pela obra ao Prêmio Jabuti de Literatura em 2014 volta a São Paulo para uma temporada no Teatro Vivo, de 8 a 30 de setembro, com apresentações aos sábados e domingos, às 15h. Dirigido por Duda Maia, o espetáculo ganhou cinco troféus no 5º Prêmio Botequim Cultural e sete no 3º Prêmio CBTIJ.

Trata-se de uma peça que conta uma história de amor e separação entre uma menina (Carol Futuro) e um passarinho (Pablo Áscoli) que cai ferido na varanda de sua casa. Ela passa a cuidar do passarinho e eles se apaixonam. Quando chega a hora da despedida, ele mesmo pede para que ela o prenda em uma gaiola. Certo dia, a menina flagra o pássaro encantado com a beleza do dia lá fora e uma crise se instaura entre os dois.

A tentativa de aprisionar o amor é inútil e os dois chegam a uma importante conclusão. “É uma história que aborda temas delicados, mas fala também de reinvenção e novas possibilidades, de uma forma lúdica, carregada de humor e lirismo”, define a autora.

A Gaiola é um espetáculo que provoca sensações, onda cada um, independente da idade e experiência de vida, se identificam, por isso eu costumo dizer que é um espetáculo para a família”, afirma a diretora. A encenação de Duda Maia mistura teatro, dança, música, canto e contação de história. Ela criou uma partitura coreográfica que costura toda a encenação, exigindo um intenso trabalho físico dos atores. Eles também interpretam as seis canções originais, cujas letras são assinadas por Eduardo Rios sendo uma delas, um trecho do livro escrito pelo autora. Os arranjos foram compostos pelo premiado diretor musical Ricco Viana. Este também é responsável pelos temas instrumentais que permeiam praticamente todo o espetáculo.

Criada pelo artista plástico João Modé, a cenografia é uma instalação artística formada por um banco comprido e um trapézio, que servem para dividir o espaço cênico entre terra e céu, espaço do sonho e espaço da realidade, e uma grande caixa, que se transforma na gaiola.  Já a luz de Renato Machado foi pensada para recortar as cenas e acentuar os diversos climas do espetáculo, e os figurinos de Flavio Souza remetem ao universo dos cartoons, com cores e muitos detalhes, trazendo contudo uma estética moderna.

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A Gaiola

Com Carol Futuro e Pablo Áscoli

Teatro VIVO (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 – Morumbi, São Paulo)

Duração 50 minutos

08 a 30/09

Sábado e Domingo – 15h

$40

Classificação Livre

POUSADA REFÚGIO

Com direção de Pedro Granato e texto de Leonardo Cortez, POUSADA REFÚGIO volta em cartaz no Teatro Vivo com sessões às terças-feiras, às 20h. O elenco traz Daniel Dottori, Glaucia Libertini, Maurício de Barros e Tatiana Thomé, além do próprio autor da peça.

A trama apresenta dois casais que desejam construir um recanto no meio da natureza para fugir de suas várias crises. Durante um jantar para festejar a maquete da Pousada Refúgio, a realidade ameaça destruir o sonho do grupo. Nesse apartamento hipster, uma série de verdades sobre aquelas relações deterioradas ficam mais evidentes à medida que os convidados consomem bebidas alcoólicas.

Esse desmoronamento dos sonhos e slogans publicitários prontos para uma vida melhor coloca em choque universos em busca de harmonia. Para tratar de todas essas questões, o elenco tem um trabalho intimista ao expor pouco a pouco o ridículo da nossa tragédia. A situação se passa como um plano sequência, em que a ação acontece em um único espaço e em tempo real, sem elipses ou saltos.

A maquete representa o depósito de todos os sonhos dos casais. “Em um apartamento de classe média, focado em eletrodomésticos, adega, varanda gourmet, temos ali no centro um pedacinho de paraíso, cheio de verde, de coisas rústicas. É como quando você vai escolher uma viagem para suas férias e imagina um lugar lindo para onde gostaria de fugir. A ideia é trazer para a peça o contraste entre o que as pessoas idealizam e sonham com o que é a vida delas”, explica Granato.

As principais referências para a encenação são a própria realidade do Brasil e as pessoas com as quais o espectador convive diariamente. “Estamos falando da classe média, do amigo desempregado, dos amigos que têm filhos e veem o casamento entrar em crise, da frustração com a profissão, do desânimo provocado pelas crises econômica e política. O que eu acho mais legal é sair desse universo do teatro autorreferente, que só revisita textos clássicos, para falar sobre como as pessoas vivem hoje no país”, diz.

Esse desejo escapista, ainda segundo o diretor, revela uma dificuldade das pessoas para encarar seus problemas de frente. “Acho que um traço de personalidade do Brasil é essa baixa autoestima, essa ideia de que o país nunca vai dar certo. Alternamos entre o país do futuro e o país do eterno passado; raramente é do presente”, esclarece.

A cenografia e o figurino adotam como referência estética a moda hipster de roupa, de restaurantes, de comida natural, um universo que, de acordo o diretor, “contaminou até os mais playboys”. “As pessoas querem ser orgânicas em uma cidade extremamente poluída, campeã de doenças respiratórias. Quanto isso é tapar o sol com a peneira? Quanto queremos nos enganar de que temos uma vida sustentável em uma estrutura insustentável? Eu acho que o texto discute isso”, acrescenta.

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Pousada Refúgio

Com Daniel Dottori, Glaucia Libertini, Leonardo Cortez, Maurício de Barros e Tatiana Thomé

Teatro Vivo (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 – Vila Cordeiro, São Paulo)

Duração 80 minutos

07/08 até 20/11

Terça – 20h

$40

Classificação 14 anos

O MONSTRO

A possibilidade de pessoas comuns cometerem atos terríveis em busca de saciar seus desejos mais obscuros é o tema do monólogo O Monstro, uma adaptação do diretor Hugo Coelho para o conto homônimo de Sérgio Sant’Anna. A peça estreia no Teatro Vivo no dia 5 de junho e segue em cartaz até 1º de agosto.

O texto original é uma longa entrevista com Antenor Lott Marçal sobre o caso envolvendo a bela jovem Frederica Stucker.  Ele  diz ao repórter que concordou em falar com a mídia para poder expor seus sentimentos, dar suas explicações e falar sobre tudo o que aconteceu sem as limitações fatuais que todo processo penal implica.

A adaptação teatral, que elimina a figura do repórter, apresenta a confissão de um professor de filosofia, ou seja, um homem culto, que está absolutamente consciente dos terríveis crimes que cometeu. Ele resolve abrir o jogo em um cenário não muito bem definido (ao contrário do conto original), que serve para representar a própria consciência do protagonista.

Antenor, interpretado pelo ator Genézio de Barros, fala sobre o perigoso jogo de sedução que vivia com a sua namorada Marieta de Castro, uma bem-sucedida executiva do mercado financeiro. Numa tarde de sábado Marieta atraiu a jovem Frederica para a casa dela e, ali,  junto com Antenor , imersos na busca pelo prazer desmedido, acabam por ultrapassar as fronteiras de um encontro casual e terminam por abusar da jovem.

A ideia da encenação é criar uma reflexão sobre as seguintes questões: de que adianta conhecer a ética, se não somos capazes de ter ações éticas? Quais são os valores que regem a vida em sociedade? Qual caminho deveríamos trilhar em busca da felicidade? Sob quais valores viviam os personagens? O que faz um homem comum cometer um crime atroz? Estaríamos todos sujeitos a essa possibilidade? Quantas pessoas como Antenor vivem soltas em sociedade?

O monólogo apresenta todas as contradições e nuances desse professor que se deixou levar por suas paixões e chega até a fazer com que o público se identifique com ele em alguns momentos. “Não se trata de humanizá-lo, mas de mostrar, por meio de sua trajetória, como um ser humano é capaz de chegar a extremos”.

A montagem mistura diferentes tempos da narrativa: emocional, das memórias, factual e o presente. Tudo está junto e misturado nesse personagem, como se suas confissões fossem uma tentativa “de chegar a uma verdade pelos menos relativa que possa explicar do que é capaz o ser humano”, como ele mesmo afirma no início do texto.

Os abusadores muitas vezes se escondem atrás de seu poder e de uma pretensa sofisticação. Sedutores, atraem suas vítimas e são capazes de cometer verdadeiras atrocidades como se fosse a coisa mais normal do mundo, como se suas ações não tivessem consequências devastadoras na vida das pessoas.

Não é sem razão que a vítima no conto de Sérgio Sant’Anna é uma mulher, que ainda hoje, sofre uma forte discriminação em nossa sociedade e é tratada como objeto a serviço do mundo masculino.

Os personagens de O Monstro são contraditórios e se expõem inteiramente o que confere ao conto e a adaptação para o palco uma visão critica dos nossos tempos. De uma forma ou de outra revela quem somos desde as pessoas mais simples e seus pequenos delitos até os mandatários da nação.

CARMEN

O Monstro
Com Genézio de Barros
Teatro Vivo (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 – Vila Cordeiro, São Paulo)
Duração 60 minutos
05/06 até 01/08
Terça e Quarta – 20h
$50
Classificação 16 anos

LOVE, LOVE, LOVE

Espetáculo que recebeu 12 indicações a prêmios na temporada carioca, estreia no Teatro Vivo dia 23 de março, sob direção de Eric Lenate, com texto inédito no Brasil de Mike Bartlett.

Depois do sucesso da montagem de “Contrações” (premiações: APCA, APTR, Questão de Crítica e Aplauso Brasil), a companhia monta texto inédito do mesmo autor. No texto Love, Love, Love de Mike Bartlett, de 1967 a 2014, uma família conta a história de sua geração abordando, de maneira crítica, o contexto político e social de sua época e demonstra como somos modificados pelo tempo em que vivemos.

O primeiro texto que lemos de Mike Bartlett foi Love, Love, Love, depois de uma imersão de dois anos de leitura de autores contemporâneos, nos conectamos especialmente com esse autor. Ele é contundente com o momento em que vivemos, é profundo e provocador ao mesmo tempo que tem uma escrita clara e objetiva. Para o Grupo 3, o teatro é lugar de revisitar a história e pensar a questão do tempo político e social. E mesmo Mike escrevendo em Londres, cabe muito bem na pesquisa do grupo”. relata Gabriel Fontes Paiva.

Os três ficaram bem impressionados com o tema político revelador de como uma geração é definidora da próxima. Mas, na época, a companhia acabou por decidir montar Contrações. “Era perfeito para o momento do grupo, tratamos o tema de dominação em todas as montagens anteriores. Além disso, “Contrações” foi a peça de maior interlocução direta com o público e decidimos repetir Bartlett porque percebemos como era importante avançar nesse movimento”, conta Débora Falabella.

A escolha foi certa. A peça rendeu 7 prêmios ao grupo, que três anos depois pode montar “Love, Love, Love.” “O texto conta a história de uma família bem peculiar, mas está tratando do conflito geracional mais atual que poderia ser. É um texto político e também psicológico. É tudo junto como costumam ser as grandes obras”, reflete Yara de Novaes.

Uma obra que, além de descrever uma família com todas as suas idiossincrasias e personalidades, também demonstra como somos modificados pelo tempo em que vivemos. A ação começa em 1967, na noite da primeira transmissão ao vivo de TV via satélite, em que os Beatles cantaram All You Need Is Love. Sandra, bonita e sedutora, recém-ingressada na universidade, marcou um encontro com Henry. Mas ela se interessa por seu irmão mais novo, Kenneth, também de 19 anos e calouro universitário. Em 1990, eles estão confortavelmente em outra realidade – são da classe média, curiosamente negligentes com os dois filhos, em um casamento prestes a ruir. Mas o grande momento é o último ato, em 2011, em uma reunião de família, quando a filha do casal, Rose, que foi uma violinista promissora, agora com 37 anos e muito decepcionada, arremessa sobre eles e sua geração de paz e amor a responsabilidade pelo fracasso da geração dela afirmando: “Você não alterou o mundo, você o comprou”.

O grupo  que estreou em 2005 na Casa de Cultura Laura Alvim e já teve seus espetáculos dirigidos porYara de Novaes, Aderbal Freire Filho e Grace Passô, desta vez convidou Eric Lenate.

O espetáculo Love, Love, Love tem o patrocínio da Vivo. “Estamos orgulhosos em trazer para o Teatro Vivo mais este espetáculo, marcado pela qualidade e pelo talento do Grupo 3 de Teatro e que certamente será sucesso de público também na capital paulista”, revela André Acioli, curador do Teatro Vivo.

Lovex3 Rio Domingo-326

Love, Love, Love
Com Augusto Madeira, Débora Falabella, Mateus Monteiro, Alexandre Cioletti e Yara de Novaes
Teatro Vivo (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 – Vila Cordeiro, São Paulo)
Duração 110 minutos
23/03 até 27/05
Sexta – 20h, Sábado – 21h, Domingo – 18h
$50/$60
Classificação 14 anos

CÉUS

A estreia de Céus marca o segundo encontro do diretor Aderbal Freire-Filho e do ator e produtor Felipe de Carolis com o teatro de Wajdi Mouawad. O primeiro encontro foi em Incêndios, a peça fenômeno com o maior número de prêmios da história do teatro Brasileiro – foram mais de vinte prêmios, e mais de 50 indicações só entre RJ e SP -, que rodou o país por três anos com absoluto êxito de público e crítica. E foi ainda durante os ensaios de Incêndios que Felipe decidiu que montaria Céus. “Houve um episódio específico que foi decisivo para eu bater o martelo e comprar os direitos da peça: estávamos ensaiando dentro do teatro Poeira, em 2013, quando o país ia às ruas para as manifestações que ficaram famosas pelo nome ‘não é por vinte centavos’. No intervalo do ensaio, vimos uma manchete que informava sobre a ameaça da intervenção militar naquelas manifestações. Nos olhos dos meus colegas de elenco eu vi o semblante de tristeza, dor e medo, uma mistura de indignação e angustia. Eu tive uma vontade enorme de ir para a rua, mas naturalmente não poderia abandonar o ensaio. Eu olhei pro Aderbal e disse “esta situação me lembra muito Céus, a ultima peça da tetralogia”. No dia da estreia de Incêndios fui no ouvido do Aderbal e falei pra ele ‘Céus é nossa!’”, conta ele. E acrescenta: “Infelizmente o terrorismo cresce assustadoramente e a peça se torna mais e mais atual. Mas é muito importante prestar atenção neste autor fabuloso, na maneira como ele apresenta o tema principal da peça, expondo feridas como a descriminação religiosa, o preconceito com a possível inteligência jovem, a sensibilidade do homem moderno e a força da cultura nas gerações futuras”.

Então, ator e diretor se reuniram novamente para explorar a dramaturgia do autor que é um dos mais destacados nomes da cena contemporânea internacional. O espetáculo Céus estreou com grande sucesso em 2016 no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro e é ainda inédita no resto do país.

Isolados em uma espécie de bunker, as personagens precisam desvendar um iminente atentado terrorista. Especialistas no assunto, eles também são confrontados com o misterioso desaparecimento de um membro da equipe. Atravessado por temas de extrema atualidade, o texto de Mouawad caminha para uma profunda discussão sobre o Terror e o mundo contemporâneo.

A questão atual do terrorismo não é mais vista como um conflito entre Oriente e Ocidente. Na verdade, a peça caminha para uma discussão mais profunda, que vai muito além das divisões territoriais, muito além de questões religiosas”, analisa Aderbal, que aponta as muitas diferenças entre Céus (2009) e Incêndios (2003), que fazem parte de uma mesma tetralogia denominada ‘Sangue das Promessas’.

Para o diretor, Céus traz uma discussão sobre as revoltas e a insatisfação da juventude em um mundo que a castigou sempre. Após receberem uma civilização construída por interesses que não são seus, a juventude ainda vê guerras – motivadas por estes interesses – os destruírem, tanto no exército que os recruta como, indiretamente, nas rupturas de gerações. “É uma peça nova, no sentido de ter uma dramaturgia contemporânea, aberta, que dialoga com a poética ilimitada da cena. Estamos diante de um texto que reconhece o poder da cena ilimitada”, reflete Aderbal.

Além do conteúdo, as duas peças apresentam diferenças acentuadas também na forma. Enquanto Incêndios trazia a saga de uma personagem marcada por trágicos acontecimentos ao longo de décadas, Céus concentra a sua ação em um curto espaço de tempo e em um espaço definido.

Mouawad batiza o local em que as personagens se encontram de ‘célula francófona’, não especificando exatamente um país. Os espectadores apenas sabem que eles estão presos e que só poderão sair após finalizar a missão de desvendar o suposto atentado. É nesta tensão em que os conflitos individuais são apresentados e que a construção de todo o enigma da trama é desvendado.

Talvez fique mais evidente uma dramaturgia nova quando ela explora as possibilidades infinitas do palco ao ousar na quebra de limites entre tempo e espaço, o que não acontece em Céus. As mudanças de tempo e espaço aqui são relativamente pequenas. Mas o teatro novo, a poética da cena ilimitada, o palco da imaginação não existe apenas por essas razões mais evidentes: ele está no modo de construir os personagens, de apresentar a trama, de desenvolver a narrativa, de combinar os diferentes recursos dramáticos e construir, enfim, uma nova póetica”, resume Aderbal.

Para o espetáculo, o diretor recrutou parceiros de longa data para a ficha técnica, como o cenógrafo Fernando Mello da Costa e o iluminador Maneco Quinderé. Os figurinos são assinados por Antonio Medeiros e a trilha sonora é de Tato Taborda. Desta vez, ele faz uso de projeções impactantes (Estúdio Radiográfico) em cena. O espetáculo tem coprodução da Tema Eventos.

Responsável pela obra do Wajdi no Brasil, Felipe de Carolis conta que “chegar até a agência detentora dos direitos do Wajdi foi um processo árduo. Todo dinheiro do meu trabalho ia para pagar os direitos de Incêndios. Era o risco da minha vida. O valor foi altíssimo. Wajdi é o jovem autor mais premiado no mundo. Hoje, recebe homenagens como ator, diretor, dramaturgo e autor em todos os continentes, mas o Brasil ainda não o conhecia. Eu sempre quis fazer tragédia. A linguagem épica, a interpretação que o trágico pede é de uma carpintaria da dor inatingível. Eu sempre quis passar por aí, investigar este lugar, beber nesta fonte. A possibilidade de trazer para o público brasileiro um grande autor trágico contemporâneo tão imbricado às suas raízes, e ao mesmo tempo tão universal, me fez querer colocar ele em cena. Aprender com Aderbal e Marieta, e todos os atores que convidei a dedo para as duas peças, com certeza, são fatores definitivos nesta história”, completa.

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Céus
Com Felipe de Carolis, Rodrigo Pandolfo, Marco Antônio Pâmio, Karen Coelho, Isaac Bernat
Teatro VIVO (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 – Morumbi, São Paulo)
Duração 110 minutos
26/01 até 04/03
Sexta – 20h, Sábado – 21h, Domingo – 18h
$50/$60
Classificação 14 anos