PARA OS DOIS LADOS

“Para os dois lados”, com dramaturgia de Vinícius Garcia Pires e direção de Mario Spatizziani é o novo trabalho do Núcleo Descerimonioso de Teatro, que tem como ponto de partida a crise da empatia no ser humano contemporâneo. O espetáculo estreia em 14 de março, às 21h, no Viga Espaço Cênico. A curta temporada segue até 29 de março, com sessões aos sábados, às 21h e domingos, às 19h. Os ingressos custam R$40.

A partir do atropelamento de um homem, quatro figuras dedicam-se a tarefa de reconstruir sua história partindo de sua aparência, suas roupas, a posição do corpo, uma marca na sola de seu tênis… O que teria vivido esse homem? Por que isso aconteceu? Quem era ele? Quais os possíveis motivos que o levaram à aquela situação? Qual a última imagem captada pela sua retina? A tentativa de responder questões como essas revela mecanismos narrativos dessas quatro figuras que fantasiam, irresponsavelmente, a partir do fato de um homem ter sido atropelado, criando assim uma falsa empatia desconectada da história real deste homem que permanece desconhecida.

Em uma encenação não realista, o homem atropelado e inconsciente também fala, seguindo o que restou de sua memória, com a finalidade de encontrar suas próprias respostas.

“Para os dois lados” contrai a relação da verdade dos fatos e suas possíveis interpretações motivadas por anseios e crenças individuais daquele que toma conhecimento de um acontecimento, mas o recria através de sua narrativa tendenciosa, oportunista, ignorante e/ou irresponsável.

A peça pode ser compreendida como um convite para a reflexão sobre nossos próprios mecanismos narrativos e o perigo da ressignificação de fatos para atender aos nossos interesses e nossa sede por pertencimento, legitimidade ou puro entretenimento.

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Para os Dois Lados

Com Beatriz Belloti, Caio Freire, Elle Henriques, Paulo Maeda e Thiago Marques

Viga Espaço Cênico (Rua Capote Valente, 1323 – Pinheiros, São Paulo)

Duração 55 minutos

14 a 29/03

Sábado – 21h, Domingo – 19h

$40

Classificação 12 anos

AO VIVO

O espetáculo AO VIVO é composto por textos curtos de Bruna Pligher, Carla Kinzo, Lucas Mayor e Marcos Gomes que se relacionam com o universo dos programas televisivos. A peça estreia no dia 3 de março no VIGA Espaço Cênico, onde segue em cartaz até 1º de abril. As apresentações acontecem às terças e quartas, às 21h.

Dirigida por Lucas Mayor e Marcos Gomes, que pesquisam as cenas curtas em seu núcleo no Cemitério de Automóveis, a peça reúne quatro situações independentes unidas apenas pelo universo da televisão. “Temos investigado há algum tempo a questão das formas breves nas narrativas. E nossos trabalhos nesse tempo, por vezes, tem sido convidar outros dramaturgos para escrever conosco cenas ligadas por algum tipo de temática. Na nossa oficina de dramaturgia, pensamos a estrutura do conto para a concepção de uma peça”, revela Mayor.

Em “Não foi isso que eu quis dizer”, o autor Marcos Gomes narra uma entrevista ao vivo conduzida por uma jornalista com a dramaturga de uma peça polêmica, que tem sido bastante atacada nas redes sociais. As duas começam a conversar em clima ameno, mas, aos poucos, a sabatina vai esquentando ao tratar de temas como o fazer artístico nos tempos atuais.

Já no texto “Ninguém me conhece tão bem”, de Lucas Mayor, um casal participa daqueles programas de relacionamento nos quais os casados devem provar que conhecem bem seu/sua companheiro(a). Claudio e Fátima não conseguem ouvir o que o outro está respondendo e a apresentadora gera uma enorme confusão com as suas perguntas.

Uma repórter investigativa não consegue se desligar do trabalho em “Plantão”, de Carla Kinzo. A cena narra a conversa dessa profissional com sua analista em uma sessão de psicanálise. A jornalista tenta a todo custo ter o controle daquela “entrevista”.

Finalmente, em “Trem Louco”, de Bruna Pligher, um casal, que já está junto há bastante tempo, participa de um programa de entrevistas sobre casamentos bem-sucedidos. As perguntas da apresentadora e as reações dos espectadores pela internet podem colocar essa relação à prova, sobretudo quando o tema da conversa é a traição.

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Ao Vivo

Com Andrea Tedesco, Antoniela Canto, Daniela Schitini, Monalisa Vasconcelos, Rodrigo Sanches e Walter Figueiredo

Viga Espaço Cênico (Rua Capote Valente, 1.323, Pinheiros, São Paulo)

Duração 60 minutos

03/03 a 01/04

Terça e Quarta – 21h

$40

Classificação 16 anos

ENCERRAMENTO DO AMOR

Versão brasiliense da obra Clôture de l’Amour do dramaturgo francês Pascal Rambert, o espetáculo Encerramento do Amor estreia dia 24 de janeiro, sexta-feira, às 21h, no Viga Espaço Cênico. O texto tem tradução de Marcus Vinícius Borja, direção de Diego Bressani e traz no elenco Ada LuanaJoão Campos e Taís Felippe. A curta temporada segue até 2 de fevereiro, com sessões sextas e sábados às 21h e domingo às 19h.

Em uma discussão que precede o fim de um relacionamento, apenas uma pessoa fala ininterruptamente, separados apenas por um breve número de sapateado. Dentro de uma grande sala, uma mulher e um homem conversam, é ele que começa o diálogo. Ela escuta, atenta, e lhe responde com um segundo monólogo. Eles evocam sua separação, falam do antes e do agora. Eles têm armas iguais, mas não as utilizam da mesma maneira. Há dois olhares, dois silêncios, dois discursos para dizer sobre a violência de um amor que vive seus últimos suspiros diante do público.

Para o diretor Diego Bressani, o texto foi o foco principal no processo de montagem. “Pesquisamos subsídios que pudessem favorecer esse elemento em sua forma mais essencial, buscando experimentar e colocar em cena só o que julgássemos realmente necessário. Trabalhamos muito com a ideia de uma instalação sonora, em que cada um faz o seu monólogo para encerrar, à sua maneira, aquela relação. A partir daí, outros elementos surgiram da forma mais simples e orgânica possível. Procuramos seguir o texto original à risca e abraçar, à nossa maneira, as propostas por ele sugeridas”, explica.

O desejo de montar a versão brasileira veio da atriz Ada Luana, que viu na ousadia do texto não somente um grande desafio como intérprete, mas também a potencialidade das relações humanas. O tradutor Marcus Vinícius Borja assistiu o espetáculo em sua estreia na França em 2011. Muito impactado com a obra, surgiu a ideia de montar uma versão brasileira com a atriz, mas a distância impossibilitou a parceria.  A peça estreou no Cena Contemporânea 2018 – Festival Internacional de Teatro de Brasília – e passou também pelo Festival do Teatro Brasileiro/Janeiro de Grandes Espetáculos, em Recife.

Ada convidou, então, o ator João Campos e seus parceiros do grupo S.A.I (Setor de Áreas Isoladas), Diego Bresani e Taís Felippe para realizar a montagem. “Por meio dos caminhos de direção e atuação decidimos expandir a discussão sobre o término de um relacionamento também para as questões de gênero. O abuso emocional nas relações afetivas, a violência psicológica, o machismo, o empoderamento feminino, temas atuais e urgentes. Nesse sentido, creio que há um diálogo direto com o conceito de ‘amor líquido’, do filósofo francês Zygmunt Bauman (1921-2017)”.

A peça não trata, necessariamente, de um amor romântico, no sentido mais clássico e tradicional da palavra. É um retrato atual da humanidade e suas relações afetivas, de gênero. É real, sem filtros, um espelho muito próximo para os espectadores. E muitas vezes incômodo. Levamos à cena um amor em transição, que busca um caminho ao se ver perdido, muitas vezes atropelado pela velocidade e urgências do mundo”, completa João Campos.

A pesquisa do grupo sobre a obra de Pascal Rambert se debruça sobre o verbo e a escuta como elementos estruturantes na construção da narrativa e condução da expressividade no palco. O formato contemporâneo proposto pela encenação do texto francês remete o espetáculo à uma intensa paisagem sonora. A distância entre os corpos no palco, a limpeza e simplicidade do figurino e cenografia e a iluminação fria reforçam e conduzem o foco da experiência cênica ao trabalho dos atores, ao ato de falar e de ouvir.

Não há nada mais universal do que esse sentimento que tanto nos fascina e nos corrói. E o término dessa relação, escrito de forma tão genial por Pascal Rambert, acaba por abarcar diversos outros temas fundamentais para serem debatidos hoje, não só no Brasil, mas no mundo todo: afeto, família, incomunicabilidade, liberdade, violências contra mulher, machismo. Tudo vem à tona quando se decide falar de forma tão visceral sobre o amor”, fala João Campos.

Encenada pela primeira vez no Festival de Avignon em 2011, a peça recebeu o Grand Prix de Literature Dramatique em 2012, assim como o prêmio de melhor atriz e autor no Palmarés du Théâtre 2013. O texto foi escrito para os atores franceses Audrey Bonnet e Stanislas Nordeye. Após a temporada francesa, surgiram diversas versões da peça com atores de diferentes culturas e línguas.

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Encerramento Do Amor

Com Ada Luana, João Campos e Taís Felippe

Viga Espaço Cênico (R. Capote Valente, 1323 – Pinheiros, São Paulo)

Duração 80 minutos

24/01 a 02/02

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$30

Classificação 14 anos

BRIAN OU BRENDA?

Cada vez mais pulsante na sociedade, a discussão sobre identidade de gênero ganha uma abordagem surpreendente em Brian ou Brenda?, com dramaturgia de Franz Keppler e direção de Yara de Novaes e Carlos Gradim, que recria com liberdade ficcional o polêmico caso de David Reimer. O espetáculo tem sua temporada gratuita de estreia no Centro Cultural São Paulo – Sala Jardel Filho, entre 27 de setembro e 20 de outubro, e, em sequência, segue para uma temporada popular no Viga Espaço Cênico, de 25 de outubro a 17 de novembro, com ingressos a R$20.

Em 1965, nascem os gêmeos Brian e Bruce, que são submetidos a uma cirurgia de fimose aos 8 meses. Durante esse procedimento, o pênis de Brian é acidentalmente cauterizado. Atônitos, os pais procuram o psiquiatra John Money, que defende a tese de que os bebês nasceriam neutros e teriam seu gênero definido pela criação. Ele aconselha a família a fazer em Brian uma operação de redesignação sexual e a educá-lo conforme uma menina.

A criança passa a ser chamada de Brenda. O resultado é uma menina que cresce infeliz em um corpo que não é seu e, ainda adolescente, tenta se matar. Os pais decidem contar a verdade e, então, Brenda resolve ir em busca da real identidade que nunca havia deixado de ter.

Conhecida como um dos casos mais polêmicos da psiquiatria, a violência sofrida por David Reimer é usada por pesquisadores e instituições de todo mundo para fomentar a discussão sobre identidade de gênero. Os grupos conservadores argumentam que este é um exemplo de que uma pessoa biologicamente nascida com o sexo masculino sempre se identificará como um homem. Já os teóricos de gênero defendem que o sofrimento causado pela tentativa de impor uma identidade a David é o mesmo pelo qual as pessoas transgêneras passam na sociedade conservadora que tenta impor seus padrões.

A encenação mescla fatos reais e ficcionais para propor uma reflexão sobre gênero e o direito às escolhas e desejos de cada um, bem como os limites dos tratamentos médicos e psiquiátricos. O grupo faz questão de frisar o respeito pelas diferentes identidades, colocando a pauta, inclusive, na boca de David. Ao final da trama, por exemplo, ao ser questionado em uma entrevista, ele afirma que não é contra a cirurgia de redesignação sexual, se isso for um desejo de uma pessoa que se sente no corpo errado, contrapondo essa possibilidade ao que aconteceu.

Para celebrar a diversidade e contribuir ainda mais com essa discussão, o elenco escolhido traz Augusto Madeira, Daniel Tavares, Giovanni Venturini, Jimmy Wong, Kay Sara, Lavínia Pannunzio, Marcella Maia e Paulo Campos, pessoas com diferentes origens, condições físicas, etnias e identidades de gênero.

O texto começou a ser escrito em 2015, quando Franz Keppler foi contemplado em um edital de dramaturgia do ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Em 2018, o grupo foi contemplado na 1ª edição do Prêmio Cleyde Yáconis, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

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Brian ou Brenda?

Com Augusto Madeira, Daniel Tavares, Giovanni Venturini, Jimmy Wong, Kay Sara, Lavínia Pannunzio, Fabia Mirassos e Paulo Campos

Duração 100 minutos

Classificação 14 anos

Centro Cultural São Paulo (CCSP) – Sala Jardel Filho (Rua Vergueiro, 1000, Paraíso – São Paulo)

27/09 até 17/11

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 20h

Entrada Gratuita (distribuídos uma hora antes de cada sessão)

 

Viga Espaço Cênico (Rua Capote Valente, 1323, Pinheiros – São Paulo)

25/10 até 17/11

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$20

DIÁRIO DE UMA MULHER ILUMINADA

Baseado na História de vida da Professora Leslie Temple-Thurston, que hoje vive em Joanesburgo, na África do Sul,  o espetáculo “Diário de uma Mulher Iluminada” estreia no dia 9 de agosto, às 21h, no espaço Viga. O texto é de Miguel Filliage, com direção de Francisco Gomes. Em cena as atrizes Andrea Prior e Thaís Ienaga.

Sinopse

Leslie recebe a visita em sua casa da aluna Marie, que passa por uma crise profunda e resolve recorrer à sua professora espiritual em busca de salvação e de respostas. Porém, ela é surpreendida por uma situação inesperada com sua mestre, o que acaba contribuindo para que o destino das duas mude completamente.

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Quem é Leslie?

Leslie Temple-Thurston é uma professora espiritual sul-africana que doou grande parte da sua vida ao estudo da mística e da antiga sabedoria. Nos anos 80, reclusa em seu apartamento em Los Angeles, alcançou a iluminação e a completa dissolução de sua velha identidade. Hoje ela é fonte de inspiração e orientação para o despertar de diversos admiradores e discípulos ao redor do mundo.

É autora de dois livros, escritos com seus parceiro, há mais de 25 anos, Brad Laughlin. São eles: “O casamento do Espírito” e “Retornando a Unidade”, ambos traduzidos para várias línguas.

Leslie e Brad são fundadores de duas organizações não governamentais, Corelight, com foco na transformação,  que promove seminários, meditações coletivas, eventos online e estudos contínuos;  e a Seeds of Light – braço humanitário que luta pra preservar ecossistemas ameaçados em todo mundo e oferece ajuda aos órfãos da AIDS e às comunidades excluídas na África do Sul.

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Diário de uma Mulher Iluminada

Com Andrea Prior e Thaís Ienaga

Viga Espaço Cênico (R. Capote Valente, 1323 – Pinheiros, São Paulo)

Duração 60 minutos

09/08 até 27/09

Quinta e Sexta – 21h

$80

Classificação 14 anos

A FILHA DA MÃE

Realizado inteiramente por mulheres, o espetáculo A Filha da Mãetexto inédito de Livia Piccolo, estreia no Viga Espaço Cênico em curta temporada de 1º a 30 de junho. Com atuação de Joana Dória, a peça fala sobre a condição materna nos dias de hoje, desvinculando-a do idealismo e do romantismo que cerca o assunto. Para isso, atravessa temas como o patriarcado, o aborto, o feminismo e a morte.

O projeto nasceu do encontro entre essas duas artistas e mães e marca a primeira direção teatral de Livia Piccolo. Ela começou a escrever as primeiras palavras do texto em 2016, pouco depois do parto de seu filho. “Não se trata de um relato autobiográfico ou filiado ao teatro documentário, mas sim de um texto ficcional que metaboliza referências estéticas e experiências reais do processo de tornar-se mãe”, explica.

A trama acompanha as aflições, questionamentos e dificuldades de uma mãe em três momentos de sua vida: o parto e os primeiros dias de maternidade com a sua filha, a morte de sua mãe e o aniversário de 30 anos da filha já adulta. Cada uma dessas etapas é narrada com características performativas diferentes. Por exemplo, na primeira parte, a linguagem tem caráter lírico e oral, representado pelo Spoken Word e textos em fluxo. O segundo momento é mais dramático e o terceiro em forma de cartas que a mãe escreve para a filha.

A autora Livia Piccolo conta sobre como surgiram esses três momentos no texto: “O primeiro momento escrevi em um lugar muito quente, elaborando a experiência do meu parto, que foi intenso, natural e desejado. Esse registro começou quase como um desabafo, mas depois foi se distanciando da minha experiência pessoal. Enquanto escrevia sobre isso, tive a ideia de falar sobre o fim da vida. E por que não falar do término da vida da mãe dessa personagem? A partir do momento que ela se torna mãe, passa a repensar a história com a própria mãe. Acho que essa é uma experiência comum na maternidade. Você começa a valorizar mais sua mãe ou a pensar naquilo que gostaria de fazer diferente. E o terceiro momento, que é dessa personagem mais velha, veio das referências literárias que eu metabolizei no texto. As principais foram os livros da Elena Ferrante, que retrata mulheres de diferentes idades, e de outra escritora italiana, a Natalia Ginzburg, sobretudo o romance ‘Caro Michele’, sobre uma mãe mais velha que escreve cartas para seu filho. O livro Monodrama, do poeta Carlito Azevedo, onde ele fala da morte de sua mãe, também foi bem importante.

A peça transita entre a materialização do ambiente doméstico e os vestígios dos pensamentos e memórias da personagem, convidando o público a uma experiência de desconstrução e desnudamento de ideias pré-concebidas sobre o que é ser mãe. A ideia é revelar aspectos concretos e pouco discutidos na vida das mulheres, como a solidão, o aborto como uma escolha real, a depressão pós-parto, as mudanças físicas e sociais, a reorganização dos sonhos a partir da notícia da gestação, o mito do amor materno, as dificuldades e os abusos de uma sociedade que não as acolhe.

Para a atriz Joana Dória, a maternidade contemporânea é mais acompanhada pelo sentimento de solidão em relação ao passado. “Tenho a sensação de que antigamente os núcleos familiares eram maiores e o cuidado com crianças, bebês e idosos era mais compartilhado. Por outro lado, o discurso social e cultural dizia que o cuidado com os filhos era responsabilidade exclusiva da mulher. Hoje, as mulheres almejam muitas coisas e questionam muito mais a maternidade como a principal realização feminina. Acho curioso que tenhamos uma aparência de maior liberdade – queremos ser profissionais bem-sucedidas, queremos nos realizar em outras áreas e a sociedade já defende a ideia de que o pai precisa ser de fato presente e responsável –, mas, ao mesmo tempo, estamos atribuladas de muitos desejos e demandas. É difícil equilibrar tudo isso. Sinto que a maternidade contemporânea é atravessada pelas muitas frentes das quais as mulheres estão tentando dar conta e por um tanto de solidão. Acho que esse sentimento sempre existiu, mas talvez esteja mais exposto agora que falamos sobre isso em muitos grupos de mães, redes sociais e textos de internet”, esclarece.

A encenação adota como duas principais referências a experiência da diretora Livia Piccolo com a maternidade e o ensaio “Mother Series”, da premiada fotógrafa holandesa Rineke Dijkstra. “A primeira referência é a minha experiência como mãe e o que aconteceu no meu ambiente doméstico. A minha casa passou a ficar muito desorganizada. Aconteceu todo um rearranjo dos objetos e dos espaços com a chegada do meu filho. E eu quis passar para a peça um pouco dessa desordem que o puerpério traz. No cenário, os objetos são todos suspensos, como se a casa estivesse de pernas para o ar. E a segunda referência são as imagens de Rineke Dijkstra, que retratou mães que acabaram de parir vestindo apenas roupa de baixo e segurando os filhos no colo. Essas fotos transmitem força e ao mesmo tempo fragilidade. Eu queria que a encenação trouxesse esse elemento cru”, comenta.

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A Filha da Mãe

Com Joana Dória

Viga Espaço Cênico – Sala Piscina (R. Capote Valente, 1323 – Pinheiros, São Paulo)

Duração 60 minutos

01 a 30/06

Sábado – 21h, Domingo – 19h

$30

Classificação 12 anos

MANSA

Depois de estrear no Rio de Janeiro integrando a programação do festival Cena Brasil Internacional em junho de 2018 no CCBB Rio, Mansa, com dramaturgia de André Felipe e direção de Diogo Liberano, desembarca em São Paulo e estreia no Viga Espaço Cênico – sala Viga, no dia 8 de fevereiro. A temporada segue até 31 de março, com sessões às sextas e aos sábados, às 21h; e aos domingos, às 19h.

Na trama, Amanda Mirásci e Nina Frosi interpretam duas irmãs que, após anos de abuso em cárcere privado, matam o pai e enterram seu corpo nos fundos da casa. Mais do que apresentar um mero crime, a peça busca investigar a origem da violência contra a mulher.

Seguindo o jogo proposto pela dramaturgia, as atrizes dão vida a diferentes personagens e, como detetives ou arqueólogas, vão progressivamente desenterrando uma história silenciada, deixada na terra e perdida no tempo. Os personagens – todos eles masculinos – observam o drama das irmãs por diferentes ângulos, anunciando um constante processo de “amansamento” feminino. A montagem chama atenção para inúmeros crimes praticados contra as mulheres e que não recebem a devida punição, naturalizando a violência contra elas em nossa sociedade contemporânea.

A dramaturgia é construída por meio de fragmentos que se estendem por vários tempos, desde a infância das duas irmãs, passando pela adolescência, até o ato do crime e momentos posteriores a ele: julgamento, prisão e futuro. O terreno onde o corpo do pai foi enterrado é o espaço que une as cenas passadas, presentes e futuras, ganhando contornos que extrapolam uma única narrativa e abrindo aos espectadores o mesmo desafio: como afirmar algo sobre uma história que não é contada por suas vítimas, mas quase sempre por seus violentadores?

A encenação de Diogo Liberano buscou construir, junto à direção de movimento de Natássia Vello, uma dramaturgia corporal que apresenta diversos momentos da vida dessas irmãs. Por meio de uma relação de encaixe e desencaixe, a dramaturgia se relaciona com tais movimentos buscando abrir perguntas sobre os fatos narrados pelos personagens masculinos e a realidade vivida e sentida pelas mulheres que foram emudecidas. A trilha sonora original de Rodrigo Marçal, o cenário e os figurinos de André Vechi e a iluminação de Livs Ataíde visam, de modos variados, encontrar e completar uma história que foi esquecida e silenciada.

O autor André Felipe partiu de referências sugeridas pelo diretor e pelas atrizes para criar a dramaturgia original. Uma das origens da investigação foi a clássica dramaturgia “Antígona” do grego Sófocles. “O embate vivido entre as irmãs Antígona e Ismênia: uma querendo tomar uma decisão que desafiaria o Estado e causaria a sua morte e a outra amedrontada em realizar uma ação considerada indevida para uma mulher naquela época”, comenta Liberano sobre o processo de pesquisa que também incluiu estudos filosóficos e filmes sobre penitenciárias e instituições de confinamento.

Tínhamos o desejo de falar do confinamento e da instituição prisão modelando e domesticando o corpo da mulher”, acrescenta o encenador. O nome do espetáculo foi uma sugestão do dramaturgo a partir do poema “Uma mulher limpa”, do livro “Um Útero é do Tamanho de Um Punho”, da escritora Angélica Freitas (que segue transcrito abaixo):

porque uma mulher boa

é uma mulher limpa

e se ela é uma mulher limpa

ela é uma mulher boa

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

a mulher era braba e suja

braba e suja e ladrava

porque uma mulher braba

não é uma mulher boa

e uma mulher boa

é uma mulher limpa

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

não ladra mais, é mansa

é mansa e boa e limpa

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Mansa

Com Amanda Mirásci e Nina Frosi

Viga Espaço Cênico – Sala Viga (Rua Capote Valente, 1323 – Pinheiros, São Paulo)

Duração 70 minutos

08/02 até 31/03

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$40

Classificação 16 anos