VIDAS MEDÍOCRES OU ALMAS LÍRICAS

Com temporada no Teatro Pequeno Ato de 6 de abril a 26 de maio, a Companhia Alvorada, que brindou o público em 2018 com o espetáculo “É Samba na Veia, é Candeia” – sucesso de público e crítica – prepara-se para voltar aos palcos com uma nova montagem. Com a peça “Vidas Medíocres ou Almas Líricas” o grupo apresentará uma mescla de cenas de quatro textos principais do dramaturgo russo Anton Tcheckhov, além de trechos de cartas e contos do autor.

Para o diretor da companhia, Leonardo Karasek, a escolha por Tcheckov se dá por reconhecer em sua obra questões universais e contemporâneas, que, embora escritas originalmente há cerca de 120 anos, remetem a conflitos entre forma e conteúdo, passado e futuro, vida e morte e destino e tristeza. O autor russo, na opinião de Karasek, mantém uma fábula em seu enredo, no qual a unidade de tempo e espaço persiste e o diálogo oscila entre a relação dramática e a simples reflexão do mundo concreto e de um mundo de elucubrações.

Na obra de Tchekhov, seus diálogos dizem pouco. A eloquência está nos solilóquios, chamados por Peter Szondi, em “Teoria do Drama Moderno”, de “lírica da solidão”, na qual existe uma liberdade nos silêncios, pausas e descontinuidade de tempo e espaço”, afirma o diretor.

Mas, e o samba? Segundo Karasek, o genuíno ritmo brasileiro está presente em sua segunda montagem de forma orgânica. Nada foi planejado. No decorrer da construção do texto, os sambas surgiam em sua mente. Letras e melodias que falavam do destino, da melancolia e da natureza da vida. “Afinal, seria a tristeza a essência primária da alma lírica humana?”, induz o diretor à reflexão.

Com esses questionamentos em mente deu-se início a carpintaria cênica e a criação da identidade visual da peça, que também teve inspiração em outro russo, o diretor de cinema Andrei Tarkovsky, vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cinema de Cannes em 1980, com o filme “Stalker”, de 1979.

Neste novo espetáculo, o público irá se deparar com esses espectros, esses fragmentos, objetos abandonados, musgo, poeira, ferrugem, fotografias gastas pelo tempo… Signos que remetem à perenidade e à atemporalidade”, adianta o diretor.

Em relação às provocações que a peça levará ao palco, Karasek exemplifica. “Se o personagem Pétia, de ‘O Jardim das Cerejeiras’, realça que tudo que acontece neste mundo terreno ‘não passa de gesticulação’, de uma espécie de entretempo entre o nascimento e a morte onde criamos expectativas, frustrações, desejos, alegrias e rancores em relação à vida, por outro lado nós amamos, odiamos, casamos, trabalhamos, viajamos, fazemos arte, filosofamos. Nesse contexto, a pergunta central desta produção é: será que isso tudo vale a pena? Será que isso tudo tem algum sentido? Esses espectros passam a sentir necessidade de dialogar e não importa, esta é a nossa única vida e seguimos nela”, complementa.

Ainda de acordo com o diretor, a poética desta encenação reside na enfatização do eu lírico e o eu dramático. O homem social e o homem subjetivo. A partir disso, abrem-se caminhos para se refletir sobre a solidão, este sentimento que ronda a humanidade como uma sombra e é tema recorrente numa época de ilusões e idealismos desfeitos.

Por sua vez, a atriz e produtora executiva da peça, Rita Teles, afirma que o ponto fundamental de “Vidas Medíocres ou Almas Líricas” reside no equilíbrio da provocação do texto de Tchekhov com a genialidade lírica da poética de sambas de autores como Cartola, Paulinho da Viola, Manacéa da Portela e Nelson Cavaquinho. “Teremos até uma polca do Jacob do Bandolim”, diz.

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Vidas Medíocres ou Almas Líricas

Com Rita Teles, Aloysio Letra, César Figueiredo Cantão, Vanise Carneiro e Flávio Gerab

Teatro Pequeno Ato (Rua Dr. Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 70 minutos

06/04 até 26/05

Sábado – 21h, Domingo – 19h

$40

Classificação: 12 anos

O JARDIM DAS CEREJEIRAS

Para celebrar quarenta anos de vida artística o Grupo TAPA estreia O Jardim das Cerejeiras, de Anton Tchekhov (1860-1904), no dia 10 de janeiro, quinta-feira, às 20h30, no Teatro Aliança Francesa, palco que foi residência artística do grupo durante os primeiros quinze anos de atividades em São Paulo.

Com direção de Eduardo Tolentino de Araujo, o elenco é formado por Adriano Bedin, Alan Foster, Alexandre MartinsAnna Cecília JunqueiraBrian Penido RossClara CarvalhoGabriela WestphalGuilherme Sant’AnnaMariana MunizNatália Beukers, Paulo MarcosRiba CarlovichSergio Mastropasqua e Zécarlos Machado.

Última peça escrita pelo dramaturgo russo, a trama é ambientada no início do século 20 em uma Rússia na iminência da revolução social. Comédia dividida em quatro atos, a peça conta as peripécias de uma família aristocrata em decadência, que resiste em vender o seu jardim de cerejeiras, ao qual atribui valor afetivo, apesar de improdutivo nos últimos tempos. Um homem de negócios chega para tentar adquirir a propriedade e transformá-la em balneário para veranistas, de olho no potencial turístico.

Escrita em 1904, O Jardim Das Cerejeiras é um dos pilares da dramaturgia ocidental. Seu tema é a transformação: Um ciclo termina e outro começa. “Como é próprio dos jardins que renascem a cada primavera. Nada mais oportuno diante de um mundo que passa pela profunda transformação da era industrial para a digital”, diz Eduardo Tolentino de Araujo.

Para o TAPA, a montagem desse texto é um momento simbólico. Em 1998, ao completar vinte anos de trajetória, escolheram Ivanov, primeiro texto de Tchekhov, como marco de maioridade. E, agora, a sua obra prima final para celebrar a maturidade do grupo. “Nada mais instigante e desafiador do que enfrentar esse texto que há anos povoa nossos sonhos, sempre a espera da maturidade que pudesse dar conta da tarefa. É como fechar um ciclo, sobrepor o amadurecimento de um autor com o de um grupo de teatro. É urgente, afinal a vida passa como um átimo”, acrescenta o diretor.

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O Jardim das Cerejeiras
Com Adriano Bedin, Alan Foster, Alexandre Martins, Anna Cecília Junqueira, Brian Penido Ross, Clara Carvalho, Gabriela Westphal, Guilherme Sant’Anna, Mariana Muniz, Natália Beukers, Paulo Marcos, Riba Carlovich , Sergio Mastropasqua e Zécarlos Machado.
Teatro Aliança Francesa (Rua Gen. Jardim, 182 – Vila Buarque, São Paulo)
Duração 120 minutos
10/01 até 21/04 (Dias 28 de fevereiro e 1º, 2 e 3 de março – feriado de Carnaval – não haverá espetáculo)
Quinta, Sexta e Sábado – 20h30, Domingo – 19h
$30/$60
Classificação 12 anos

QUANDO AS MÁQUINAS PARAM

Uma nova montagem da peça “Quando as Máquinas Param”, de Plinio Marcos, reestreia no dia 18 de janeira, com supervisão artística de Oswaldo Mendes e direção de Augusto Zacchi. No elenco estão Carol Cashie e Cesar Baccan.

O texto mostra a dificuldade de  em encontrar trabalho, o que torna a relação com Nina, sua esposa, cada vez mais complicada. Nessa situação de penúria, ele revela um lado que ela antes não conhecia. Em tempos de recessão e desemprego a atualidade da peça de Plínio Marcos (escrita em 1967) é o que mais assusta.

“Quando as Máquinas Param” já teve Tony Ramos, Luiz Gustavo e Marcos Paulo, nos papeis masculinos, Walderez de Barros, Yara Amaral e Miriam Mehler, nos papeis femininos, em montagens dirigidas por Nelson Xavier, Jonas Bloch e também pelo autor, Plinio Marcos. Esta nova montagem inaugurou um novo espaço no teatro Aliança Francesa: a Sala Atelier. 

Sobre o autor e a peça

Por Oswaldo Mendes 

História de amor em um tempo mau

Há quem diga que o Teatro não muda o mundo. Nada mais falso. A Arte, assim com maiúscula, transforma as pessoas e a sociedade. Seria cansativo enumerar exemplos. Pensar no tema no momento em que um Museu se transformou em cinzas tem um efeito dramático e por vezes desolador, como lição a ser aprendida. Mas voltemos ao nosso cotidiano e a essa Arte tão frágil que é o Teatro. Uma Arte que fala diretamente ao seu tempo. Por isso efêmera, por isso condenada a nascer e a renascer a cada instante, enquanto fenômeno cênico. Enquanto literatura, eventualmente um texto teatral pode sobreviver ao tempo pela força da sua poesia e do seu mergulho na alma humana. É preciso lembrar o óbvio para entender o destino do dramaturgo que, ao contrário do poeta, fala com os seus contemporâneos para ser ouvido de imediato. Enfim, o dramaturgo tem urgência. Foi essa urgência que transformou o Palhaço Frajola das quebradas de Santos em autor de Teatro, no final dos anos de 1950. Ao ler sobre um garoto, currado na cela de uma cadeia pública, que ao sair vingou-se de cada um dos seus estupradores, o Bobo Plin escreveu, num impulso, sua primeira peça, “Barrela”. Ele que já sabia alguns segredos do palco, como palhaço de circo e ator de espetáculos infantis e amadores, dominou logo a escrita teatral, ao ponto de Patrícia Galvão, a Pagu dos modernistas, surpreender-se com o fato de um analfabeto escrever uma peça tão boa e forte. Analfabeto ele não era, mas essa é outra história.

Já em São Paulo, no início dos anos de 1960, Plínio Marcos não deixou de ser, como ele mesmo se apresentava, “repórter de um tempo mau”. E foi assim que deu voz e tornou visíveis personagens até então ausentes dos palcos. Fossem eles dois perdidos numa noite suja ou habitantes de um quarto infecto de uma pensão dos becos esquecidos do bom Deus. Personagens que invadiram os palcos com um ímpeto avassalador. Logo algumas vozes, do próprio teatro, começaram a duvidar da legitimidade revolucionária e transformadora desses personagens, incapazes de mudar a própria vida e muito menos a vida da sociedade. É quando Plínio Marcos nos apresenta Nina e Zé, jovem casal de uma vila operária na periferia. Poderia ser apenas mais uma história de amor de dois jovens com sonhos de Romeu e Julieta. Sonhos modestos de uma novela de rádio ou de um time de futebol. Mas Plínio nos mostra o que acontece quando as máquinas param para José e ele vai para o olho da rua. De repente, a modesta felicidade sonhada não resiste à brutalidade do desemprego e à incerteza do amanhã.

De novo Plínio Marcos foge do padrão de crítica política e sociológica do teatro daqueles tempos. Ele não é maniqueísta, não aponta um inimigo que encarne o mal absoluto. Como uma metralhadora giratória, ele vai tocando em todos os pontos vulneráveis da ferida social. São tempos maus. Lá estão os meninos no futebol de rua, despreparados como Zé para enfrentar a vida e o trabalho. Lá está o jovem sem profissão. Lá está a mulher, arrimo de família, sustentando o duro cotidiano da casa. Lá está o sindicato que não se preocupa com os desempregados, mas com a mesa de pingue-pongue. Lá está o trabalhador que explora o próprio trabalhador. Lá está o orgulho do náufrago que recusa a mão que o quer salvar. Lá está Zé, para quem a vida se resume a Nina e ao Corinthians, e que ao contrário do herói da radionovela não pode se alistar na Legião Estrangeira e fugir da infelicidade. Lá está Nina, a mulher sozinha com a sua decisão de ter o filho que espera, custe o que custar. E o preço é alto, Nina. E o preço é alto, Zé.

Mais uma vez, como Brecht, Plínio Marcos faz ruir à nossa frente uma história de amor e deixa no ar a pergunta – quem fez isso a eles? Plinio não responde. Não cabe a ele responder. Ele é apenas o poeta que nos pega pela mão e leva até seus personagens para que não nos esqueçamos deles. E de nós mesmos. E então o Teatro abre nossos olhos, toca nossa sensibilidade, desperta nossa humanidade. Talvez, sim, o Teatro possa mudar o mundo. Há urgência. Tomara um dia não mais existam Nina e Zé, como os dois perdidos numa noite suja, senão como personagens de uma reportagem de um tempo mau e distante. Por enquanto, porém, eles ainda pedem pelo nosso olhar.

Oswaldo Mendes, ator e dramaturgo, é autor de “Bendito Maldito – Uma biografia de Plínio Marcos (Editora Leya, 2009).

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“Quando as Máquinas Param”

Com Carol Cashie e Cesar Baccan

Teatro Aliança Francesa – Sala Atelier (Rua Gen. Jardim, 182 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 60 minutos

18/01 até 24/02/19

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h30

$30

Classificação 12 anos

CIDADE DOS CÃES

Uma cidade qualquer, pouco importa onde é, quatro estranhos se cruzam, um professor atormentado, uma psicóloga depressiva, uma adolescente vingativa e um matador de aluguel, quatro objetivos diferentes.
Suas angústias, medos e demônios se confrontam como cães de rua, brigando pelo escasso lixo para comer.
Uma metáfora irônica e violenta de uma sociedade que já não produz mais heróis.
A peça Cidade dos Cães, texto de José Alberto Martins, estreia em 05 de outubro no Teatro Paiol Gurgel.
CARMEN
Cidade dos Cães
Com Alinne Bello, Liza Caetano, Ronney Thiago, Vagner Miranda, José Alberto Martins, Mário Bortolotto (Narração)
Teatro Paiol Cultural (R. Amaral Gurgel, 164 – Vila Buarque, São Paulo)
05 até 26/10
Sexta – 21h
$40
Classificação – não informada

AS IRMÃS SIAMESAS

Com encenação de Sébastien Brottet-Michel, diretor francês e ator do Théâtre du Soleil, desde 2002, o espetáculo As Irmãs Siamesas, de José Rubens Siqueira, estreia no dia 5 de outubro (sexta, às 20h30), no Teatro Aliança Francesa. peça revela a complexidade e ternura da alma feminina, inserida na relação familiar, a partir do reencontro de duas irmãs, interpretadas por Cinthya Hussey e Nara Marques, após a morte da mãe.

As Irmãs Siamesas foi escrita em 1986, rendendo o Prêmio APCA de Melhor Autor a Siqueira. As particularidades da alma humana, a personalidade e a individualidade aparecem de forma natural e contundente no reencontro de Marta e Maria.

A morte da mãe provoca o encontro e o confronto entre Marta, a irmã mais velha e cuidadora da mãe, e Maria, que partiu para uma vida nova em São Paulo. Frias e distantes, elas entram em casa envoltas pelo incômodo da presença uma da outra e precisam reaprender a se comunicar. As lembranças são inevitáveis. Cada memória vem carregada de rancor, mágoa, acusação ou mesmo ternura, leveza e humor. O passado é o fantasma de Marta que acredita não ter tido a oportunidade de ser feliz, obrigada a permanecer numa cidade do interior, carregando a responsabilidade da mãe doente sem opção de viver a própria vida. Agora, sente-se ainda mais perdida, sem a mãe e sem o filho que vive fora do país.

É preciso restabelecer os laços, a ligação fraterna que se perdeu. Os diálogos evoluem na mesma proporção das emoções. A muralha vai sendo transposta à medida que as questões vão sendo expostas, colocando-as numa posição de maior proximidade. O encontro é permeado por momentos de ternura e delicadeza, outros de raiva e até violência, até revelar os detalhes da vida de cada uma.

A magia de As Irmãs Siamesas está na simplicidade em como apresenta duas personalidades tão distintas na superficialidade e tão similares no íntimo. O afeto é o frágil elo que une Marta – mulher forte, severa, amarga e retraída, mas que comove por sua naturalidade – e Maria – jovem urbana, ousada, instintiva e de alma livre. Ao espectador cabe a imersão nessa história sensível que discute o tempo por meio das relações familiares e das consequências das escolhas do passado, ampliado pela ótica do feminino.

Sobre a direção, Sébastien Brottet-Michel diz que o fundamental é expor as características das personagens. “O caminho não é a busca psicológica dessas características, mas a imaginação, tanto a minha quanto a das atrizes, sobre o que é necessário para contar a história. O corpo do ator deve ser uma entidade que recebe a personagem; o psicológico vem pelo estado do corpo e da imaginação”. Sébastien afirma que não importa a interpretação propriamente dita, mas o fato de que as atrizes vivam, literalmente, as mulheres do texto com a máxima verdade. Segundo ele, o espectador precisa ler o corpo do ator a partir da possibilidade que o ator lhe dá. “Buscamos pelo melhor momento, pelo estado que trouxe a verdade para encantar a realidade por meio do deslocamento poético. Isto é percebido pela respiração, pela tensão interior. A emoção vem das descobertas em cena. E o drama é vivo: oferece-nos estados e diferentes possibilidades”. E com relação ao texto de José Rubens, o diretor diz que espera que o público se reconheça nas personagens, pois “o luto é inerente a todos, e a morte do pai ou da mãe é como um muro que desaba, trazendo a consciência da nossa própria finitude”.

O Brasil não é novidade para o diretor Sébastien Brottet-Michel. Há 10 anos, ele se apresenta no país com o Théâtre du Soleil. “Cinthya e eu estivemos juntos em vários projetos, sempre pensamos em realizar um espetáculo e agora aconteceu”. Para Cinthya Hussey, a direção de Sébastien fez um ajuste fino na obra de José Rubens Siqueira que se encaixa perfeitamente nas emoções das cenas. “A preparação foi um trabalho muito difícil e muito rico até chegarmos ao ponto pretendido por ele; aquele ponto onde o corpo diz uma coisa e o texto diz outra. E o coração? Ele também diz outra coisa”, comenta a atriz.

Cinthya conta que teve contato com o texto, em 2005, e já pensava em montá-lo. Fez algumas leituras e, em 2009, conheceu Nara, passando a compartilhar com ela, desde então, o desejo de levar As Irmãs Siamesas para o palco. “Pensei em Sébastien para dirigir essa peça porque admiro a forma como ele nos traz as imagens, fazendo a transição do real para o poético. Ele nos guia e nos insere no universo proposto pelo autor sem precisar do realismo material, penetrando nas camadas mais profundas das personagens”, revela a atriz.

Para Nara Marques, ter um texto brasileiro encenado com um olhar europeu é um privilégio, depois de anos à espera de concretizar esse sonho. Ela conta que, para ela, o trabalho foi muito desafiador e a tirou da zona de conforto: “Sébastien me pediu para transpor a vida, transpor o realismo para dentro da poesia e só assim cheguei a um lugar que eu não conhecia”. E completa afirmando que “esse processo foi fundamental para potencializar um texto cheio de humanidade e intensidade nas relações”.

E o autor José Rubens Siqueira também fala sobre a montagem de seu texto, mais de 20 anos após ser concebido. “Sempre que um autor vê seus personagens saltarem da página e ganharem corpo e voz sobre o palco, renova-se a fé na arte como instrumento de mudança pessoal e social. A sensibilidade e coragem dessa equipe jovem e talentosa é um alento neste momento sombrio que vivemos”.

A cenografia de As Irmãs Siamesas, assinada por Marisa Rebollo, também é cheia de poesia e foge do realismo: apresenta um baú dentro de outro baú para transparecer as diversas camadas da relação entre as irmãs. O baú é a simbologia da mãe, da vida, da morte, podendo representar as prisões internas, as lembranças guardadas, o túmulo. O estado interior das personagens é potencializado pela iluminação de Rodrigo Alves (Salsicha) e pela trilha sonora original de Wayne Hussey, conhecido cantor, guitarrista e compositor da banda inglesa The Mission. “Compor música para uma peça de teatro era algo que eu queria muito fazer. Evitei os instrumentos modernos, que exigem eletricidade para não colocar a peça em uma época determinada, e segui pela linha do acústico, com piano, violino e violão clássico, que se tornaram minha paleta de som exclusiva para a trilha: uma música mais lenta, vazia e aberta, não sentimental”. Wayne trabalhou em conjunto com o pianista inglês James Bacon e o violinista David Milsom na criação da série de adágios que compõem o clima da encenação. A trilha será lançada em CD, em edição limitada, e vendida após as apresentações do espetáculo.

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As Irmãs Siamesas

Com Cinthya Hussey e Nara Marques

Teatro Aliança Francesa (Rua Gen. Jardim, 182 – Vila Buarque. São Paulo)

Duração 80 minutos

05/10 até 02/12

Sexta e Sábado – 20h30, Domingo – 19h

$40

Classificação 14 anos

EU ESTAVA EM MINHA CASA E ESPERAVA QUE A CHUVA CHEGASSE

O novo espetáculo de Antunes Filho, Eu estava em minha casa e esperava que a chuva chegasse do dramaturgo contemporâneo francês, Jean-Luc Lagarce, retrata o cotidiano de cinco mulheres que esperam a volta do caçula da família. Nesta peça, de modo atemporal, descortina-se um contar interminável de hipóteses sobre o retorno do único homem, que partiu de casa, após se desentender com o pai. No decorrer do espetáculo – e de suas múltiplas versões –,o espectador assiste a um entrecruzar-se contínuo de possibilidades. Neste jogo cênico, o enredo, aparentemente simples, encontra-se estrategicamente costurado pelas cinco mulheres. Resta ao espectador tecer a sua própria versão da história. O elenco é composto pelas atrizes Fernanda Gonçalves, Daniela Fernandes, Viviane Monteiro, Susan Damasceno e Rafaela Cassol.

Sobre a dramaturgia

Lagarce compôs seu espetáculo à maneira de um novelo narrativo. Nele não há apenas um fio exposto, guiando e orientando a história. Ao contrário, existem inúmeros fios que levam a “soluções” e a caminhos diversos. Cada uma das cinco mulheres apresenta a sua versão, ou seja, no desenrolar da encenação, uma a uma tece seu ponto de vista e a forma como imaginou e imagina os fatos. A partir dessas versões, o espectador se depara com uma gama de possibilidades, advindas dos fios narrativos que ora convergem, ora se contrastam. Assim, por exemplo, o conflito que estrutura o enredo, a saber, o desentendimento entre pai e filho que culminou na partida do caçula, é representado – instaurando assim um verdadeiro metateatro, complexo e labiríntico – e imaginado, sobretudo imaginado, pelo prisma subjetivo lançado por cada uma Delas, as quais sustentam esta família inominável.

Sobre o espetáculo

O espetáculo de Antunes Filho consegue extrair a teatralidade do texto de Lagarce, minuciosamente elaborado e estrategicamente embaralhado, para o palco. Para isso, a atenção do diretor redobrou-se constantemente, uma vez que foi preciso, antes mesmo de conceber a encenação propriamente dita, investigar, mapear e decifrar a escrita poética deste importante dramaturgo e diretor teatral.

CARMEN

Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse

Com Fernanda Gonçalves, Daniela Fernandes, Viviane Monteiro, Suzan Damasceno, Rafaela Cassol

Sesc Consolação (R. Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 70 minutos

21/09 até 16/12

Sexta e Sábado – 21h, Domingo e Feriado – 18h

$40 ($12 – credencial pleno)

Classificação 14 anos

QUANDO AS MÁQUINAS PARAM

Uma nova montagem da peça “Quando as Máquinas Param”, de Plinio Marcos, estreia no dia 12 de outubro, com supervisão artística de Oswaldo Mendes e direção de Augusto Zacchi. No elenco estão Carol Cashie e Cesar Baccan. 

O texto mostra a dificuldade de  em encontrar trabalho, o que torna a relação com Nina, sua esposa, cada vez mais complicada. Nessa situação de penúria, ele revela um lado que ela antes não conhecia. Em tempos de recessão e desemprego a atualidade da peça de Plínio Marcos (escrita em 1967) é o que mais assusta.

“Quando as Máquinas Param” já teve Tony Ramos, Luiz Gustavo e Marcos Paulo, nos papeis masculinos, Walderez de Barros, Yara Amaral e Miriam Mehler, nos papeis femininos, em montagens dirigidas por Nelson Xavier, Jonas Bloch e também pelo autor, Plinio Marcos. Esta nova montagem inaugura um novo espaço no teatro Aliança Francesa: a Sala Atelier.

CARMEN

Quando as Máquinas Param

Com Carol Cashie e Cesar Baccan

 Teatro Aliança Francesa – Sala Atelier (Rua Gen. Jardim, 182 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 60 minutos

12/10 até 02/12

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h30

$30

Classificação 12 anos